ESPECIAL #15: VOCÊ SABIA? LEWIS CARROLL

27/01/2018


O SONO TEM SEU PRÓPRIO MUNDO

ESPECIAL #15


Lewis Carroll, o famoso e ambíguo autor do livro Alice no País das Maravilhas, certa vez, mais precisamente em 9 de fevereiro de 1856, indagou sobre o sonhar, questionando se, quando estamos sonhando, temos a vaga consciência de estarmos assim e se tentamos, de alguma maneira, despertar. Além disso, questionou se, dentro de nossos sonhos, sabendo que estamos neles - ou não -, não fazemos coisas insanas. Carroll levanta essa questão por curiosidade, visto que desejava saber se a insanidade não seria essa incapacidade de distinguir entre o que é estar acordado e o que é estar sonhando.

Os fãs de Alice, seja no primeiro ou no segundo livro em que ela aparece, sabem que Sonho é uma das temáticas mais poderosas dentro do nonsense apresentado por Lewis. Antes de tudo, deve-se explicar o que é nonsense: é um termo que deriva de duas palavras (no(n) e sense), que significa "o que não tem sentido", "o que foge da lógica", ou, simplesmente, em uma acepção contemporânea, bobagem.

Na narrativa carroliana, o nonsense é o fundamental, pois é a maior e mais sublime essência da obra que arrematou tantos fãs famosos, como a rainha Vitória e Oscar Wilde, e continua adquirindo fãs em todo o mundo, como Neil Gaiman, que criou Coraline - a Alice sombria.

Mas o nonsense apresentado dentro das obras elaboradas por Carroll não é sem fundamento e nem sem propósito, por conta disso, não há como dizer que a acepção contemporânea "bobagem" poderia refletir de alguma maneira os seus enredos e poesia. Pelo contrário, a formação acadêmica de Charles Lutwidge Dodgson, o verdadeiro nome de Lewis Carroll, como um matemático, fazia sua mente funcionar de uma maneira extraordinariamente lógica.

Ele era tão bom como matemático que, assim que terminou os seus estudos na University of Oxford (em português: Universidade de Oxford), foi chamado imediatamente para ocupar o cargo de professor. Algo que não estava nos seus planos e nem de sua família extremamente religiosa, que acreditava que Lewis seguiria somente a vida eclesiástica - algo que mudou quando resolveu ingressar na faculdade -, no entanto, ele não desistiu de ser quem seus pais gostariam que fosse, tornando-se, alguns anos depois, um reverendo.

Além da matemática, Lewis Carroll era um exímio e versado conhecedor de outras artes, como a fotografia, a escrita criativa e poética, desenho, etc. Ele já tinha escrito alguns poemas antes de lançar Alice, e até mesmo conhecer a musa inspiradora Alice Liddell. Foi nessa mesma época, em 1856, que adotou o seu pseudônimo, uma sugestão de um editor da revista The Train, na qual já publicava.

No entanto, nem todo o talento de Carroll pode desbancar as polêmicas que envolviam o autor, pois muitos de seus fãs e leitores conheceram parte de sua biografia. O autor gostava muito de fotografar e desenhar crianças (como ele disse: meninas e não, meninos). Contudo, nos próprios diários de Carroll, fica extremamente claro como ele se sentia ofendido com insinuações de que ele pudesse maldar qualquer movimento dos infantes.

Na perspectiva adotada pelo diário que foi entregue muitos anos depois de sua morte, o autor gostava da pureza e ansiava em preservá-la, tanto é que ele não fotografava e nem desenhava qualquer criança que estivesse incomodada ou acanhada ou cujos pais estivessem em desacordo, inclusive, solicitou que todas as fotografias e desenhos fossem queimados após a sua morte ou devolvidos aos responsáveis para evitar que aquelas crianças, que se tornaram mulheres, ficassem incomodadas.

Se de fato Lewis Carroll era um pedófilo ou não, o que muitos suspeitam e não tiro a razão, não há como saber. Contudo, de acordo com seus diários, que não planejava que viessem a público - muito provavelmente -, Carroll demonstrava que amava a arte e a pureza, mas não a manchava ou nem sequer a destruiria.


O sono tem seu próprio mundo, e com frequência é tão real quanto o outro.
LEWIS CARROLL