ESPECIAL #11: VOCÊ SABIA? FLORBELA ESPANCA

08/12/2017


A FLOR MAIS BELA E SUA HERESIA

ESPECIAL #11


"Este livro é para vós. Abençoados
Os que o sentirem, sem ser bom nem belo! 
Bíblia de tristes... Ó Desventurados, 
Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo!"

FLORBELA ESPANCA
SONETOS; LIVRO DE MÁGOAS

Florbela Espanca era muito mais que uma mera flor no jardim, era também um jardim cheio de poesia. Pode parecer clichê, porém a sua arte é carregada de beleza enquanto praticava, o que muitos diziam, heresia.

Ela não era uma menina jovem, doce e recatada do campo que treinava a arte da escrita através do imaginário, ou seja, do que não vivia ou do que, talvez, vislumbrasse nos livros encostados em uma biblioteca. Pelo contrário, sempre fora uma mulher ativa, cheia de problemas pessoais que descarregava tudo o que sentia em sua poesia. Aproveitando seu talento, transfigurou todos os seus problemas, sua vida agitada na fase adulta, na qual teve tantas dores quanto amores, para o papel. Hoje, cada um de nós tem a oportunidade de ler e se aventurar nas máscaras impostas pelo destino.

Nascida como filha ilegítima, foi educada por seu pai e por sua madrasta. Entretanto, aos seis anos de idade, via-se rodeada de livros e futuros amores proporcionados pela literatura, como se o destino, sabendo de seu talento, já a ligasse profundamente com a arte que a consagraria.

No entanto, ainda que utilizasse a mais bela e a mais rica palavra, lesse o que pudesse, já aos oitos anos, apresentava insônia. Florbela Espanca era um ser sensível ao mundo e às suas próprias sensibilidades.


"Aos oito anos já fazia versos, já tinha insônias e já as coisas da vida me davam vontade de chorar. Tive sempre esta mesma sensibilidade doentia, esta profunda e dolorosa sensibilidade que um nada martiriza, esta mesma ternura apaixonada pelos bichos inocentes e simples. Ficava horas debruçada sobre um formigueiro, dizia coisas ternas aos sapos e às aranhas, e era eu quem criava os pardais e as andorinhas caídos dos ninhos que o meu irmão, solícito, me levava para que eu lhes servisse de mãe. Quando matava as moscas para alimentar as andorinhas, já o triste problema da injustiça da sorte me atormentava. Porquê sacrificar as moscas em benefício das aves? Não compreendia: se ambas tinham asas!..." (in Vol. V, Carta nº 150)


Florbela se destacava, desde jovem, exatamente por atrair a poesia para si mesma e por deixar que as suas dores se encaminhassem para o papel, como quem borra a alma das pessoas com seu encanto. Ela é, como Sophia de Mello Breyner diz em sua Arte Poética sobre a poesia, alguém que "mergulha a mão na sombra como se a mergulhasse na água", visto que era alguém transparente e que não limitava sua dor apenas para si, transbordando-a para o mundo. A poetisa se afogava em sua própria dor e, vez ou outra, emergia a superfície, escrevendo mais um poema.

Ela se alimentava da palavra - tal como nós nos alimentamos, até hoje, da que ela escrevia - para sentir e mostrar os seus amores e as suas tormentas, ambos provindos de uma sensibilidade extrema. Exatamente por esse motivo, não há escola literária na qual se encaixe Florbela Espanca, pois ela é única, não somente em toda sua graça, mas na desenvoltura e elegância que demonstrava para com a dor e o amor.

O amor sobre o qual escrevia em sua poesia havia sido dedicado para muitas pessoas, principalmente, aos homens. Ela se casou três vezes, porém, nenhum desses três homens conseguira ultrapassar, sequer alcançar, na vida de Florbela, o apreço que ela possuía por seu irmão, Apeles Espanca, por quem, como uma flor, murchou até o leito de morte.


" Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento ..."

(Florbela Espanca - Sonetos; Livro de Mágoas)


Durante muitos trechos de sua poesia, Florbela demonstra ser uma pessoa sombria e amargurada por suas mágoas, tal como é o nome de seu primeiro livro, Livro de Mágoas. Entretanto, ainda que ressentida e repleta desses sentimentos, sempre recitava a respeito dos sonhos, pois a mágoa nada mais é do que o sonho frustrado, ou a tentativa inválida de ser algo que não conseguiu.

Dessa forma, Florbela, mesmo em sua escuridão e tristeza, tentava sonhar - e sonhava! Ela continuava a sonhar, mesmo que achasse sempre frustrante não alcançar, ou não alcançar da forma desejada, o que queria ser, por conta, talvez, de sua origem ilegítima e sem nome.

As dores da infância de Florbela Espanca, que já a faziam ter insônia desde pequena, persistiram e vigoraram na fase adulta como ervas daninhas. Na maioridade, essas dores a atingiram com mais força, fazendo com que ela permanecesse ressentida em suas próprias dores que continuavam não só a calcar o seu caminho, como também continuavam impedindo-a de dormir.

A pobre mosca que matavam para alimentar as andorinhas poderia ser, como ela própria e o seu irmão, iguais a tantos outros filhos, porém, ainda assim, não era considerada igual até post-mortem, quando finalmente recebeu o nome de seu pai.

Mas, de fato, o nome dele lhe importava tanto? Não se sabe. Talvez, as suas necessidades fossem muito maiores, visto que ela era uma jovem sensível demais. Essa necessidade, provavelmente, reforçou o seu laço, extremamente forte, com o seu irmão.

O laço entre Apeles e Florbela era tão forte e complexo que a poetisa desejou que pedaços do avião de seu irmão, o hidroavião que ele pilotava quando caiu no Tejo, fossem enterrados consigo, esse aviso foi dado aos demais após duas tentativas de suicídio.

A morte da poetisa é trágica, porém não perde o seu caráter de desejo contínuo para que se consumasse: Florbela queria a morte e a considerava uma amiga bem-vinda e querida, demonstrando - sempre que podia - toda a sua perda de vontade para com a vida, o que batia de frente com as vontades da religião católica, que não permitiam o ato do suicídio.

Em toda a sua poesia, Florbela Espanca faz pequenas alusões à instituição católica, utilizando-se de termos como oração, bíblia e tantos outros, contudo, passam sempre um tom irônico que lhe era característico. Esse tom era nítido desde a sua primeira publicação, no Livro de Mágoas:


"Horas mortas... Curvada aos pés do monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!"

(Florbela Espanca - Sonetos; Livro de Mágoas)


No trecho do poema Árvores do Alentejo, pode-se vislumbrar em que situação as pessoas, árvores e objetos recorrem à religião, que gritam por Deus. Elas recorrem a tal em seu momento de mágoa e desespero totais, ideia apontada também por Nietzsche. Ainda mais, ela compara a própria Bíblia, que serve de apoio às pessoas não-abençoadas, engajadas na busca pelo bom e pelo belo enquanto, ao mesmo tempo, a Bíblia de Florbela traz o sentir em sua plenitude.

Mais de uma vez, Florbela demonstra sua opinião. No poema Tortura, diz que o verso é puro como o ritmo de uma oração, dando também a entender que é um sonho, uma utopia, visto que faz parte de um "alto pensamento", porque vem do "pó, o nada, o sonho dum momento".

Com pequenas e contínuas comparações, Florbela esbanja certa ironia e, mais ainda, heresia perante a instituição religiosa, pois ela acreditava em muito mais do que um mero livro, ela acreditava em seu coração sensível regado de feridas e alegrias, momentos que a corromperam e a transformaram na grande poesia que era, que é e que sempre será.


REFERÊNCIAS

GUEDES, R. Florbela Espanca: Fotobiografia. Publicações Dom Quixote, Lda. 2ª ed., 1999.
ESPANCA, F. Sonetos. Amadora, Portugal: Bertrand, 1978.