CRÍTICA #05: ENTRE A INOCÊNCIA E A CULPA

18/11/2017


ENTRE A INOCÊNCIA E A CULPA

CRÍTICA #05 

SINOPSE: Grace Marks (Sarah Gadon) é uma jovem irlandesa de classe média baixa, que decide tentar a vida no Canadá. Contratada para trabalhar como empregada doméstica na casa de Thomas Kinnear (Paul Gross), ela é condenada à prisão perpétua pelo assasinato brutal do seu patrão e da governanta da casa, Nancy Montgomery (Anna Paquin). Passados 16 anos desde o encarceramento da imigrante, o Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft) se apaixona por Grace e fará de tudo para descobrir a verdade sobre o caso.

DIRETOR: Mary Harron (2017)
GÊNERO: Drama, Histórico e Suspense.
DISTRIBUIDOR: Netflix. | Estados Unidos


A série The Handmaid's Tale trouxe visibilidade - devo dizer, necessária - a autora canadense Margaret Atwood, que abarca, dentro de suas narrativas, muitas críticas acerca do feminino, da sociedade e de como o mundo e o homem funcionam. Além disso, suas obras são tão marcantes e centradas nesses conflitos do homem que se tornam, em certa medida, atemporais e fascinantes demais para perdermos a oportunidade de espiar o que elas abarcam.

Enquanto vislumbramos em The Handmaid's Tale uma alegoria distópica do que podemos nos tornar no futuro; Alias Grace, por sua vez, retrata o que já fomos e continuamos sendo dentro da vida cotidiana. Pode parecer simples e até comum, porque muitos escritores já se aproveitaram desse método, entretanto, o trabalho de Atwood é explorar - de uma perspectiva feminina - o cotidiano da época e como as pessoas se comportavam. Trabalhar esse tempo, ainda que numa recepção romantizada, não deixa de ser uma investigação histórica a respeito do tratamento da mulher e do universo que cerca o século XIX.

O passado é a nossa pista para compreendermos a nós mesmos, pois não seria essa a função do estudo da história? E também não seria, em certa medida, a função do escritor? Atwood mescla os dois perfeitamente, não necessariamente investigando questões cotidianas e simplórias.

Eu não diria que é fácil, porém é mais comum vermos o homem - humanidade em geral ou somente a figura de centro do patriarcalismo - sendo explorado dentro das narrativas do que vermos a mulher, ainda mais em contextos onde a sua figura é ambígua demais para sabermos quem ela realmente é.

Grace Marks é exatamente o tipo de protagonista em que você confia desconfiando, muito embora sejam as suas palavras que deem sentido a toda trama, nós temos - como teríamos, por exemplo, dentro da narrativa de Nabokov, em Lolita - uma narradora não confiável.

Entretanto, durante a execução das cenas que se passam dentro da história, não é essa a preocupação que se dá. Ela é inocente? Ela é culpada? Essa questão é marcada desde o primeiro momento e não se esvanecerá nem no último. Isso pode parecer um spoiler, mas não é. Durante o desenvolvimento, fica perceptível que a função de Alias Grace se sobrepõe a uma mera trama policial que investiga o resultado de um assassinato, pelo contrário, é muito mais do que isso - como toda a história que Atwood elabora.

A importância da narrativa me parece o próprio meandro entre inocência e culpa em que colocam a personagem ficcional e, ao mesmo tempo, histórica. Esse sentimento de resposta não concluída, de necessidade de culpar alguém por alguma coisa é o que nos move e move os personagens extremamente bem elaborados que ali se apresentam. Cada um deles é muito complexo e cada um deles possui atitudes que condizem e muito com as histórias que viveram, tornando-os demasiadamente palpáveis.

Dentro da série, uma das falas que mais me marcou e me impressionou saiu dos lábios do Doutor Jordan, médico que acompanha todo o testemunho de Grace, a respeito do momento clímax de sua confissão: seria uma tentativa de trazer sua inocência ou de, simplesmente, falar abertamente o que jamais poderia? Essa questão que o personagem coloca é uma questão que eu me pus o tempo inteiro durante o decorrer dos seis episódios apresentados pela Netflix.

Acredito que seja uma dúvida que todos acabaremos tendo no final das contas e que, graças ao brilhantismo da autora, não será respondida. Nós não precisamos ter a resposta para todas as coisas, mas sim pensar no que a falta de resposta pode nos trazer e nos permitir aprimorar. Essa é uma questão que me pareceu muito implícita dentro da narrativa e que mexeu muito, também, com o que sei sobre a história da humanidade: nossa necessidade de culpar, de trazer o responsável por seus atos é tão absoluta que, muitas vezes, podemos julgar um inocente como culpado. Não foi assim com as tribunas populares da Caça às Bruxas?

Dessa forma, o nome da narrativa não é por acaso, Alias Grace, em inglês, significa, em uma tradução literal, "codinome Grace", podendo ser traduzido também como "pseudônimo Grace" para casos - enfatizo - de cunho criminal. O nome de Grace, embora seja seu nome verdadeiro, não necessariamente a denomina, visto que o conhecimento sobre a personagem Grace Marks, que mais parece a Sherazade da história Mil e Uma Noites, é basicamente nulo. O que sabemos de fato sobre ela? Sabemos realmente alguma coisa?

Algo interessante a ser mencionado é a tradução para o português "Vulgo, Grace", que achei - sinceramente - um primor, pois a palavra denomina algo "comum, popular". Logo, o que vemos de Grace Marks, dentro da narrativa, não é quem ela é, mas quem o povo acredita que ela seja.

Como já mencionei, a personagem Grace Marks e toda a sua narrativa é baseada em fatos reais. Margaret Atwood estudou a fundo a história dessa mulher que, até o momento, ninguém sabe se é culpada ou inocente, embora a autora alegue - em uma entrevista dada à Folha - que todos os documentos têm suas contradições e jogos políticos. Alguns diziam que ela era uma mulher pura e inocente, o semblante e a perfeição de feminino de sua época; outros jogaram com a ideia de um monstro dentro de pele de cordeiro. Inclusive, em algumas alegações, é dito que até mesmo sua aparência mudava.

Nenhum dos historiadores chegou de fato a uma conclusão, muito embora a perspectiva de Margaret se assemelhe, de acordo com a sua entrevista, com a de Banbury, historiadora da Mount Royal University. Grace Marks se salvou justamente pelo preconceito em relação ao feminino de sua época. Ela tinha uma personalidade idealizada, casta e virtuosa, levando o júri masculino - e com pensamento comum e machista da época - a verem a figura não como uma assassina, mas uma vítima da situação que foi enganada por James McDermott, ou, como há em algumas alegações, usada por ele.

Dentro da trama, a protagonista sabe o que falar e o que não falar, sabe o momento em que deve dizer a verdade ou omiti-la. Esse é o seu maior trunfo e também é o seu melhor talento, o fato de passar tanto tempo na prisão, no hospício e, eu poderia dizer, em sua própria vida cheia de traumas e conturbações desde sua infância, fizeram com Grace fosse capaz de discernir o que uma mulher da época podia ou não podia dizer, salvando-a do enforcamento. Era, considerada por Atwood e por historiadores como Banbury, uma mulher inteligente.

O seriado mostra passo a passo dessa trama que vai se desenvolvendo diante dos nossos olhos e nos envolvendo em seus percalços. Cada fato contado por Grace (Sarah Gadon) nos dá certa pena ou tristeza, às vezes, em poucos momentos, percebemo-nos não tão tristes por ela, embora seja impossível não sentir que tudo aquilo ruirá, pouco a pouco, até o momento da conversa entre ela e o Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft) acontecer e se desenvolver para o futuro da narrativa.

Todas as cenas são muito bem encenadas, Sarah Gadon (A Nona Vida de Louis Drax), encarnada em sua personagem, consegue transmitir as confusões e os sentimentos profundos de Grace, mesmo quando ela - a protagonista - parece não desejar mostrá-los a ninguém.

O seriado conta com somente seis capítulos, sem acrescentar mais nenhuma temporada futura. Cada um dos episódios leva a próxima parte e, após findá-los, não há necessidade e nem motivo para mais nada. Além disso, cada pequena cena é importante dentro da narrativa e a desenvolve, mesmo que, por algum motivo, possa não parecer dessa forma. Um instante é cheio de significado e tudo se encaixa no final - sem parecer forçado em qualquer instância.

Essa série é uma boa pedida se você gosta das histórias contadas por Margaret Atwood, se você gosta de histórias que contam sobre o feminino e discutem as diretrizes da sociedade. Essa série é uma boa pedida se você quer discutir sobre si mesmo também. Os personagens ganham vida e são transportados - os feitos por Margaret e também os históricos - diretamente para sua casa.

Ela é culpada? Ela é inocente? A questão fica para você decidir o que prefere como resposta desse jogo que pode ser psicológico, pode ser sociológico, pode ser sobrenatural.

Mas, acima de tudo, essencial.


REFERÊNCIAS

ATWOOD, Margaret. Vulgo Grace. Tradução de Geni Hirata. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.
<https://mrujs.mtroyal.ca/index.php/mruhr/article/view/27>, consultado no dia: 03/11/2017 às 20:16.
<https://cws.journals.yorku.ca/index.php/cws/article/view/8115/7294>; consultado no dia: 03/11/2017 às 21:24.
<https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq170114.htm>; consultado no dia: 03/11/2017 às 20:00.