DICA #03: É UM MAR DE PESADELOS - À CONSTRUÇÃO DE METÁFORAS AMBULANTES

12/10/2017


É UM MAR DE PESADELOS: À CONSTRUÇÃO DE METÁFORAS AMBULANTES

DICA #03

Não há língua sem metáfora, aceite essa verdade. Nossa língua é movida constantemente a comparações implícitas que fazem sentido na nossa mente e que jogamos de volta para a sociedade, nesse contínuo interminável de conversas, leituras que temos a cada dia. O fato de intitular esse texto como Mar de pesadelos - e você provavelmente já ter ouvido ou lido essa expressão em algum lugar dentro de uma comparação implícita - é uma prova de que a língua é metafórica.

Vamos, antes de começar, focar na expressão "mar de pesadelos", digamos, na frase: Esse sonho é um mar de pesadelos. O que seria um "mar de pesadelos"? Seria um mar em formato de pesadelo que invadiu o sonho? Seria um pesadelo dentro do sonho em formato de mar? As possibilidades são bem estranhas e não fazem muito sentido quando colocadas em prática, não é verdade? Visto que não faria muito sentido um sonho ter um mar literalmente em formato de pesadelo, porque sonho é um termo destinado geralmente a algo positivo ou ao ato próprio de sonhar e, além disso, devemos lembrar que não há um formato exclusivo ou específico para o pesadelo em si. Você pode ter aversão a uma situação ou a um tipo de animal, porém esse animal ou essa situação não virão em formato de mar, no máximo virão surfando em cima dele.

Mas o que de fato significa? O que de fato essa expressão, dentro desse contexto, significa é que você teve mais de um, ou de dois, ou até de três pesadelos ou coisas assustadoras dentro do seu sonho (ou tem, vá saber, não é?). A questão aqui é que mar é uma imensidão que não cabe nos nossos olhos, logo, quando dizemos mar de pesadelos, dizemos que tivemos uma incontável horda de orcs invadindo o seu sonho! Desculpa, eu quis dizer que tivemos uma incontável quantidade de pesadelos ou personagens assustadores dentro do sonho em questão, da mesma maneira, somos incapazes de contar as gotas do mar ou as estrelas do céu, por isso, você já deve ter ouvido falar em alguma expressão que use céu para referir a imensidão. Como exemplo, nós podemos ter frases como: essa faculdade é um céu de linguagem (também podendo ser uma clara referência a torre de Babel) ou até mesmo essa cidade é um céu de possibilidades! Com toda certeza, a última já foi ouvida ou lida por você, visto que, em seriados ou em livros, comumente, quando se passam em um lugar novo ou representam uma nova possibilidade para o personagem, dentro da narração ou fora dela, em alguma parte do diálogo, essa expressão metafórica é dita/ mencionada ou exaltada.

No entanto, o que é de fato a metáfora? A palavra é originária do grego metaphora, que significava "transferência", vinda do termo metapherein, o mesmo que "trocar de lugar". Essa palavra é composta por um prefixo e um radical; o prefixo meta significa "sobre" ou "além", enquanto pherein seria "levar, transportar". Ou seja, a palavra designa o que é levado além, o que é transportado para além.

Ela é um recurso linguístico natural que amplia a nossa capacidade de expressar o que sentimos, o que vimos, etc. Como os neologismos, lembra deles? Pois é, a metáfora é uma figura de linguagem. As figuras de linguagens, não somente a metáfora, trazem para nós uma enxurrada de possibilidades para expressarmos algo que desejamos.

De fato, as figuras de linguagem se subdividem em quatro tipos conhecidos: sons, pensamentos, palavras e construções. Contudo, dentro dessas categorias, a que nos interessa de fato é a figura de palavras, que é a substituição de um termo por outro, trazendo consigo um emprego longe do dicionarizado e comum, sendo, portanto, figurado e/ou simbólico. No entanto, lembre-se de que a metáfora não se faz a partir da vontade do criador, deve sempre ter uma noção de similaridade que os outros falantes da língua compreendam. Não adianta, por exemplo, você querer dizer sobre a pequenez do mundo a partir de expressões e comparações que utilizem palavras como céu e mar, pois o que esses termos representam é o absoluto contrário - a não ser que você esteja sendo irônico, o que já é outra história.

Muita atenção: essa relação pode ser encontrada dentro da similaridade entre os termos, uma comparação implícita, associação ou analogia. Todas as relações precisam ser próximas, impreterivelmente. Caso contrário, elas não fazem sentido.

Logo, para reforçar uma última vez, a metáfora é a utilização de uma palavra ou expressão em uma frase que substitua outra palavra ou outro termo e o mais interessante nesse processo, é que não há necessidade das palavras interligadas possuírem uma relação direta, embora, pelo uso cotidiano da língua, nós sejamos capazes de interligá-las.

Ao usar a metáfora, o falante ou escritor também pode, diante das circunstâncias, usá-la somente uma única vez, ou seja, você pode criar uma metáfora absolutamente nova e não a utilizar de novo e, mesmo assim, é possível para o seu interlocutor compreender. Outras metáforas, por sua vez, já foram tão utilizadas no cotidiano que acabaram por se cristalizar dentro da língua e passaram a fazer parte dela. Essas expressões nem sequer são reconhecidas mais como metáforas de fato, como o exemplo céu da boca, a explicação para essa metáfora é que a parte de cima da boca parece o céu, visto que cobre o resto como o céu cobre todas as partes do mundo - além disso, demonstrando essa forma de metaforizar, abrimos a oportunidade para mais uma maneira de metaforizar. Contudo, tais formatos, como asa de xícara ou dente de alho, já estão cristalizados e, quando passam por esse processo, deixam de ser metáfora e passam a ser catacreses, mas isso já é conteúdo para outro texto.

Voltando para as metáforas, é possível realizar metáforas superinteressantes com pouco esforço, por exemplo, podemos lembrar de metáforas cotidianas que dizem respeito a como você acha que aquele vampiro é um gato ou aquele lobisomem é uma cobra! As metáforas são a mistura de sabores mais deliciosas que temos na literatura, ao meu ver. Há muitas metáforas conhecidas, embora eu acredite que seus textos, escritor, são truques de mágica e os seus olhos são chaves que abrem portas, por isso, esperamos que você crie metáforas e expanda o nosso pequeno mundo.

Por conta disso, após explorar bem as possibilidades da metáfora, agora é a sua vez de criá-las. As tumbas do cemitério são portas para novos mundos, os altares das Igrejas são palcos para o seu show! Sinta a explosão debaixo dos seus pés e veja que o mundo já se abriu, falta você empurrar as cortinas e entrar.