DICA #14: EPIFANIA: A ARTE DO DESCOBRIMENTO

07/04/2018


EPIFANIA: A ARTE DO DESCOBRIMENTO

DICA #14

Alguma vez na sua vida você já experimentou a sensação de descobrir algo novo nas coisas mais comuns? Como olhar uma criança e, finalmente, perceber que você jamais voltará a ser uma, por mais que diga não ter se esquecido de como era? Essa verdade sempre esteve lá, sem ser desvelada; e, então, durante algo banal, como uma caminhada, ela se revela.

Pode ser que, dali a uns dois dias, você não esteja mais pensando nisso, porque a natureza humana é feita de esquecimentos; mas, naquele instante evanescente do pensamento, tudo pareceu novo. Você nunca tinha se apercebido daquilo, até que, num rompante, a lucidez foi total. Quase como uma manifestação divina.

Uma epifania.

A palavra epifania tem origem no grego ephipháneia, cujo significado é "aparição, manifestação", de acordo com o Houaiss. Na história do cristianismo, esse termo foi de suma importância, sendo usado para nomear a revelação divina de Deus no homem - ou seja, o nascimento de Jesus Cristo. Foi a manifestação de algo extraordinário no ordinário: aí reside a natureza do que é epifânico.

Na literatura, James Joyce é um exemplo de escritor que aplicou visceralmente esse conceito em sua obra. Para ele, epifania era "uma manifestação súbita, quer na vulgaridade do discurso ou do gesto, ou em uma frase memorável da própria mente". Na sua concepção, cabia aos escritores registrar essas epifanias com extremo zelo, uma vez que elas são os momentos mais delicados e fugazes.

Ao longo de seus contos e livros, identificamos diversas ocorrências delas. Em "As irmãs", por exemplo, encontramos um menino que, após a morte de um padre muito amigo seu, percebe, de repente, que a perda lhe rendeu alívio ao invés de pesar. Sentia-se livre e compreendeu isso no momento mais banal possível: enquanto olhava anúncios de teatro nas vitrines das lojas, sob o sol do dia.

No entanto, ao se falar em Joyce, é preciso ter em mente que, para desvelar as epifanias em suas histórias, ele seguia rigorosamente a estética de São Tomás de Aquino, baseada nas chamadas categorias do belo. A primeira, Integritas, diz respeito à apreensão da totalidade do objeto; a segunda, Consonantia, aborda a captação das partes que compõe o todo e da harmonia existente entre elas; e a última, Claritas, é finalmente a revelação da essência do objeto. A revelação da essência é, então, a epifania. Somente depois de realizadas a Integritas e a Consonantia é que a Claritas - portanto, a epifania - seria atingida.

Não é sem razão que os espaços são tão bem descritos, tanto em sua amplitude quanto em suas partes. Em "Um Encontro", por exemplo, conhecemos um narrador que, estando próximo às férias de verão, decide "romper, por um dia ao menos, a monotonia da escola". Na companhia de um de seus colegas, chamado Mahony, ele caminha por Dublin; e nós, enquanto leitores, acompanhamos a jornada dos dois.

Ao mesmo tempo em que nos pinta o itinerário da dupla, Joyce traz detalhes daqueles espaços que fazem com que, aos poucos, o narrador se sinta cada vez mais distante da influência do lar e da escola, lugares que, para ele, representavam conforto e segurança. É realizando esse movimento de mostrar as partes e, com elas, o todo, que Joyce nos guia para a percepção final do menino: a sua própria fraqueza e a necessidade de ser ajudado, mesmo que seja por aqueles dos quais, a princípio, o narrador não gosta.

Então, é somente após ter uma boa visão da totalidade pluripartida que a epifania nos atinge; e digo "nos atinge" porque, muito mais que apenas a revelação da essência do objeto, a epifania traz o sujeito - escritor, leitor - que se apreende através objeto. A revelação sobre a coisa é, também, uma revelação sobre si. A fraqueza e a necessidade de um também falam a quem o lê.

Mesmo quando o único intento parece ser trazer o que é essencial na coisa analisada, aquilo também fala ao sujeito, porque a revelação de uma verdade derradeira, do divino, como se propõe a epifania, é algo que significa além de si mesmo. Derradeira não no sentido de finalizada, mas no sentido de inigualável - qualquer uma que venha depois daquela não será a mesma, será outra.

Na literatura nacional, nosso exemplo mais canônico é a escritora Clarice Lispector, também famosa por se utilizar desse conceito em sua obra. Ela, que tão bem fala do cotidiano, sabe mesclá-lo com destreza ao extraordinário que se descobre no ordinário. Não é à toa que suas personagens femininas, com problemas quase atemporais, falam-nos tão fortemente.

No entanto, a forma com que a epifania se realiza através das palavras de cada escritor é única - James Joyce e Clarice Lispector desvelaram com maestria as suas. É impossível escrever uma receita pronta de como fazer. Mesmo que Joyce tenha adotado as categorias de Aquino, o que ele criou a partir daquilo pertence somente a ele. Há um lapso entre a teoria e a sua realização, cujo preenchimento diz respeito apenas ao seu trabalho e engenho.

Uma pessoa, por mais que tente, nunca é igual à outra. Assim como um texto, quando lido em épocas diferentes, nunca é o mesmo; da mesma forma, dois escritores, utilizando o mesmo conceito, criaram obras distintas e essenciais cada uma ao seu modo. Talvez essa percepção tenha sido a epifania de alguém, algum dia.

Ouso dizer que a verdade... Ou melhor, uma delas, é que o mundo é tão cheio de verdades a serem descobertas, desveladas, que a epifania jamais perderá a sua capacidade de espantar as pessoas. Como aquele rosto que vemos todo dia e, de repente, damo-nos conta de que esteve ali o tempo todo, só a gente não viu.

REFERÊNCIAS

JOYCE, J. Dublinenses. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
AZEVEDO, Lúcia. James Joyce e suas epifanias. Cogito, Salvador , v. 6, p. 147-149, 2004. Disponível em <https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-94792004000100033&lng=pt&nrm=iso>. Acessos em 06 abr. 2018.