DICA #13: À ARTE DE IMAGINAR: FIGURAS DE CONSTRUÇÃO

10/03/2018


À ARTE DE IMAGINAR: FIGURAS DE CONSTRUÇÃO

DICA #13

Há alguns textos atrás, começamos a falar de figuras de linguagem. As de pensamento foram explicadas, mas as demais nós apenas listamos. Hoje, viemos acrescentar mais informações àquele texto; chegou o momento de falar das figuras de construção.

Como o próprio nome faz supor, as figuras de construção estão ligadas à forma com que o texto é construído, organizado. Representam, em geral, mudanças na forma como as frases, convencionalmente, são estruturadas.

São figuras de construção:

• A elipse [da palavra latina ellīpsis, is, que provém do grego élleipsis, eōs, significava 'supressão (de uma ou mais palavras em uma proposição)'] é a omissão de uma ou mais palavras em uma frase, sem que, ao fazer isso, o sentido seja comprometido. Nos exemplos, quando se tratar de omissão, o termo omitido aparecerá sempre entre colchetes.


Na festa, [não havia] nenhum sinal de pais. Tudo como [havia sido] previsto.


• O zeugma [da palavra grega zeûgma, atos significava 'tudo que serve para juntar, donde jugo (da necessidade), vínculo'] é a omissão de um ou mais termos que já foram mencionados antes, evitando a repetição. 


Daqui, a gente consegue ver tudo e [consegue] ouvir também.


A gente foi à praia, [foi] ao shopping e, depois, [foi] para casa.


• O assíndeto (originado da palavra grega asúndetos, os, on tem o significado daquilo 'não unido, sem conjunção', posteriormente, aparecendo no latim como asyndĕton, i, cuja a tradução é a mesma) consiste na ausência da conjunção entre elementos coordenados.


Subiu as escadas, [e] abriu a porta do quarto, [e] pegou tudo de que precisava, [e] depois partiu rapidamente.


• O polissíndeto (originado do grego polusúndetos, os, on significava aquilo 'que contém muitas conjunções'), no caso, configura-se na repetição de uma conjunção entre elementos coordenados.


Correu e gritou e sorriu e chorou feliz, porque tudo tinha dado certo.


• O pleonasmo (provindo do grego pleonasmós, ou é aquilo que está em 'superabundância, excesso, amplificação, exageração', posteriormente, no latim tardio, aparece como pleonasmus, i traduzido nas gramáticas como 'pleonasmo, redundância') é o uso de palavras desnecessárias ao sentido porque já estão pressupostas nele, com o objetivo de reforçar uma ideia.


Às vezes, é necessário pisar com os pés no chão.


É claro que é verdade, eu vi com os meus olhos.


O hipérbato (da palavra grega hyperbatón, ou significava o mesmo que 'inversão', vindo a nossa língua a partir do latim hiperbăton, i que era o 'nome dado a várias figuras de palavras') é a inversão da ordem comum das palavras dentro da oração. Quando falamos de ordem comum, no português, estamos pensando na ordenação sujeito-verbo-objeto-complementos, que é a ordenação clássica que produzimos. O hipérbato ocorrerá, então, quando um desses elementos da oração sair de sua posição normal e for para outra.


Saiu ela, depois saí eu.

(Ordem clássica: "Ela saiu, depois eu saí". Essa é uma inversão simples em que o sujeito aparece depois do verbo. Inversões assim são também chamadas anástrofes.)


"Ouviram do Ipiranga as margens plácidas

De um povo heróico o brado retumbante"

(Ordem clássica: "As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico". Essa é a uma inversão bastante complexa. Inversões assim são também chamadas sínquese - do grego sýnchysis, que significava "confusão, "mistura". De quebra, desvendamos o hino nacional)


• A anáfora (originado do latim tardio, anafora é a 'repetição de uma mesma palavra', provindo do grego anaphorá que significava a 'ação de repetir') é a repetição de uma mesma expressão no início de duas ou mais frases, dando ênfase ao que esta sendo repetido.


Todo dia, eu saio. Todo dia, eu trabalho. Todo dia, eu não sou reconhecida. Já estou cansada disso.


• A concatenação (de concatenar, do latim concatēno, as, āvi, ātum, āre com o mesmo significado, provindo de catēna que é traduzido por 'cadeia') é o que ocorre quando usamos o último termo da frase anterior para iniciar a seguinte.


Todo dia, eu saio. Saio cedo para trabalhar. Trabalhar para sustentar vocês. Vocês que sequer me agradecem. Que vida injusta.


• O anacoluto (de anacolutia, provinda do grego tardio anakolouthía é aquilo que 'falta de estrita coerência gramatical') é a introdução, no meio da frase, de um termo ou uma expressão aparentemente solta, ou seja, sem ligação sintática com o resto da frase.


Você vai fazer isso com seu filho, eu, assim na cara dura?

(O 'eu' aparece apenas para reforçar quem é o filho, pois não exerce papel nenhum na frase em si)


O Roberto, ele sim era um homão da porra.

(de início, parece que "O Roberto é o sujeito", porém logo 'ele' aparece e percebemos que "O Roberto" acaba ficando solto na frase, apenas reforçando o "ele")


• A silepse (da palavra grega súllēpsis, eōs que significava 'compreensão, inclusão, reunião', vinda a nossa língua pelo latim syllepsis, is que se traduz por 'silepse') surge quando a concordância é feita não com o sujeito presente na oração, mas com a ideia subentendida nele. Eu mesma usei da silepse mais ao início desse texto, quando eu disse:


"Todos sabemos que, a não ser em um universo paralelo, dias não morrem literalmente."

("Sabemos" não concorda com todos, mas com uma ideia de todos, que me inclui. Ou seja, como eu disse "todos", mas quis destacar que eu estou incluída, o verbo está de acordo com o sujeito "nós")


A escola está montando uma festa. Convidaram eu e você, inclusive.

(O verbo está de acordo com a ideia de pessoas contida em a escola, e não com a expressão "a escola" em si)


Nossa, mas vossa senhoria está irritado hoje

("Irritado" concorda com a pessoa a quem se fala, que é provavelmente um homem, e não com "vossa senhoria". Essa expressão aparece, possivelmente, em tom irônico)


Com a silepse, chegamos ao fim das figuras de construção. No que diz respeito às figuras de linguagem, ainda há bastante chão a percorrer. Como já havíamos introduzido na primeira parte deste texto, há ainda as figuras de palavra e as de som, sobre as quais precisamos falar.

No entanto, um passo de cada vez. Com o que dissemos aqui, você já tem muito o que construir. Então, mãos à obra!


PARA MAIS INFORMAÇÕES:
LIMA, Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. 2013. 51º edição. Rio de Janeiro: José Olympio Editora.