DICA #12: GRAMÁTICA DA RELATIVIDADE

11/02/2018


GRAMÁTICA DA RELATIVIDADE

DICA #12

Eu adoro dizer que as coisas são relativas. Isso porque algo só é relativo quando está em relação com outra coisa. Uma bola de pingue-pongue é pequena se comparada a uma de basquete, mas bem grande se temos por referência uma de gude. Um problema é enorme até que o botemos em relação com algo bem mais problemático.

Durante as aulas de português, no ensino médio, lidamos com uma relatividade que nada tem a ver com a teoria de Einsten. Ao estudarmos certos tipos de oração, chamadas adjetivas, lidamos com um tipo de pronome chamado, justamente, relativo. O engraçado é que, raramente, paramos para pensar que, se ele é relativo, então é claro que ele deve estar em relação com algo. Mas é exatamente o que ele faz. Para ser ainda mais exata, adotarei dois significados da palavra para falar do que o pronome faz:

Ele exprime relação

E

Ele se refere a alguma coisa

A história se complica quando vamos dar nomes aos bois. O que é esse "alguma coisa"? Dizendo de forma bem simplificada, o pronome relativo retoma o que vem antes dele para evitar que a gente repita os nomes e seja redundante. Ele é um ajudante. Então, por exemplo, para evitar que eu diga:

Eu vi um filme ontem. O filme era muito bizarro.

O pronome relativo entra em cena e salva o dia, permitindo a frase:

Eu vi um filme ontem que era muito bizarro.

Dessa forma, evitamos o excesso de palavras e sintetizamos a fala. Em resumo, 'QUE' está em relação com 'UM FILME', referindo-se a ele, de forma que funciona como seu substituto na frase. Esse foi um exemplo, no entanto, 'que' não é o único pronome relativo existente. Temos vários outros, dos quais posso citar os mais comuns: ONDE, O(A) QUAL, QUEM, CUJO e QUANTO.

De modo geral, os usos funcionam da seguinte maneira:

• QUE é usado, principalmente, para substituir o nome de pessoas ou coisas, mas também pode ser utilizado para substituir sentenças quando vier após artigo definido (O, A e seus plurais).


Minha amiga me recomendou uma série. Eu assisti a essa série ontem.

Eu assisti, ontem, à série que a minha amiga me recomendou.

OU

Minha amiga me recomendou a série (a) que eu assisti ontem


OBSERVAÇÃO: Note que, ao realizar a substituição, eu posso tanto colocar a informação da primeira [Minha amiga me recomendou uma série] quanto a da segunda frase [Eu assisti a essa série ontem] em primeiro lugar. No entanto, eu preciso construir a minha fala/escrita de forma que meu ouvinte/leitor compreenda bem o que eu quero dizer. É por essa razão que eu não devo simplesmente falar:

Minha amiga me recomendou uma série que eu assisti ontem.

Pois, com isso, eu estaria criando uma frase ambígua, ou seja, com mais de um sentido (falamos um pouco sobre ambiguidade em um de nossos textos anteriores). Essa frase nos permite tanto compreender que a amiga recomendou uma série a que o sujeito já tinha assistido antes mesmo de ser recomendada; quanto que a recomendação foi anterior e, posteriormente o sujeito assistiu a série.

ATENÇÃO: Ao usar o verbo "assistir", eu precisei colocar a preposição A antes do pronome relativo 'QUE'. Isso acontece porque, como já foi dito, o 'QUE' substitui a expressão "essa série" presente na segunda frase; e, ao fazer isso, assume a função (de objeto indireto, ou seja, do que é assistido) que a expressão tinha, acompanhando a regência do verbo ao qual ela se relacionava (se você está perdido no meio dessa conversa de regência, sugiro que volte ao nosso texto sobre crase, pois nele falamos um pouco disso).

É por isso que, se eu "assisti à série" (tem um artigo e uma preposição A, ali, lembram-se?), então é a série "a que eu assisti", porque assistir pede a preposição A.

Ah, Letícia, então porque você colocou a frase com a preposição entre parênteses?

Eu fiz isso porque, no uso oral da língua, nós não usamos a preposição. A verdade é que a regência dos verbos (ou seja, as preposições que ele pede ou não) mudam da escrita para a fala. No dia a dia, raramente usamos a regência dos verbos como ela é definida pelas gramáticas tradicionais. É por esse motivo que o exemplo está ali daquele modo.

• ONDE é usado para substituir apenas lugares


Eu vou fazer estágio em uma escola. Eu estudei nessa escola quando era criança.

Eu vou fazer estágio na escola onde eu estudei quando era criança.


ATENÇÃO: Como já dissemos mais para cima, o pronome relativo acompanha a regência do verbo presente na frase em que o termo é substituído (quando falamos de "assistir" e "a série"). Então, se ONDE substitui "na escola" na segunda frase, evitando que essa expressão apareça de novo depois de "eu estudei"; ele acaba por obedecer à regência (ou seja, exigências ou não de preposição) de ESTUDAR, porque é o verbo ao qual está ligado.


Eu vou fazer estágio na escola onde eu estudei (na escola) quando era criança.


É por isso - por causa da regência - que, quando o verbo demandar a preposição "A", o pronome relativo usado será o AONDE. Provavelmente você já ouviu que ONDE é usado para perguntar EM QUE LUGAR a pessoa está (parado); e AONDE, para pergunta A QUE LUGAR alguém vai (movimento). A ideia do pronome relativo é a mesma.


Luís apareceu na padaria hoje. Eu sempre vou àquela padaria.

Luís apareceu na padaria aonde (para onde) vou sempre.


Essa diferença quase não aparece nas conversas informais, por isso pode soar estranha lida assim.

OBSERVAÇÃO: os pronomes relativos QUE e A QUAL também podem ser usados para falar de lugares. A questão da regência também vale para eles:


Eu gosto de ir à estação de metrô. A estação de metrô é antiga e bonita.

A estação de metrô a que/ à qual gosto de ir é antiga e bonita.


Note que, aqui, o verbo que o pronome relativo segue está na primeira frase. Isso porque, ao escolher em qual frase "a estação de metrô" seria substituída, selecionamos a primeira. Como já dissemos, essa escolha pode variar de acordo com o que o falante e escritor preferir, desde que o resultado seja algo compreensível para a pessoa a quem você está falando.

Há, também, uma segunda questão: Será que, ao trocar ONDE por A QUAL e O QUAL, mudamos o sentido da frase? Talvez a leitura de lugar se perca um pouco, talvez não. Isso é uma questão a se pesquisar mais a fundo.

• O QUAL (e suas variações, "a qual", "os quais", "as quais") é usado no mesmo caso que o 'que'. Geralmente aparece para desfazer ambiguidades ou evitar repetições.


Luísa conversava com o irmão de sua amiga que viajaria dois dias depois.

Primeiro sentido: O irmão era quem ia viajar

Desambiguação: Luísa conversava com o irmão de sua amiga, o qual viajaria dois dias depois.

Segundo sentido: Quem ia viajar era a amiga

Desambiguação: Luísa conversava com o irmão de sua amiga, a qual viajaria dois dias depois.


ATENÇÃO: O QUAL (e suas variações) é empregado também naquelas situações em que o QUE não encaixa. Ah, Letícia, quando seria isso? Geralmente, é quando a preposição pede um artigo definido. Isso porque, antes de QUE não se usa artigo feminino A, pois QUE não é uma palavra feminina (o A que apareceu mais acima se tratava da preposição A); e, se usamos o artigo masculino, mudamos o sentido. "O QUE", enquanto pronome relativo, é utilizado para retomar a sentença inteira, como dissemos mais acima. Então, a menos que o objetivo seja, de fato, retomar a sentença inteira, não devemos empregar O QUE.


Os homens disseram que ficariam, perante o que o dono da casa mandou que saíssem.

(Nesse caso, há a retomada da sentença anterior inteira)

A plateia perante a qual a menina se apresentaria estava lotada

(Já aqui há a retomada apenas de "a plateia")

• QUEM substitui apenas substantivos referentes a pessoas (e coisas/animais personificados, ou seja, que "correspondem" a pessoas); e - atenção! - vem sempre depois de uma preposição; e, antes dela, sempre haverá um substantivo ou adjetivo.


O garoto acabou de virar a esquina. Eu contei meu segredo para o garoto.

O garoto para quem contei meu segredo acabou de virar a esquina.


Eu gosto daquela menina. A menina é engraçada.

A menina de quem gosto é engraçada.


A colher brigou com a faca. Todos estão falando da colher.

A colher de quem todos estão falando brigou com a faca.

(Exemplo de personificação de coisa)


ATENÇÃO: Apesar de QUEM ser usado nessas situações, sua utilização não é obrigatória. No lugar dele, outros pronomes relativos, como QUE e A/O QUAL, poderiam ter aparecido, caso não houvesse nenhuma restrição que impedisse seu uso (falamos de restrições em cada subtópico). Apenas ONDE não poderia ser empregado, uma vez que pessoas não são lugares; nem o CUJO, do qual falaremos mais abaixo.

OBSERVAÇÃO: O fato de QUEM vir sempre depois de preposição tem a ver com aquilo que falamos mais acima sobre o pronome relativo preservar a função que a expressão substituída tinha na frase ("que" conservava a função de objeto indireto que "a série" tinha, lembram-se?). Acontece que QUEM sempre substitui uma expressão que tem a função de objeto indireto, ou seja, substitui uma expressão que sempre vem precedida de preposição. Como o pronome assume a sua função, também passa a ser preposicionado.

OUTRO USO: O pronome QUEM também pode ser usado sem preposição antes, mas se trata de um emprego com sentido diferente. É utilizado para fazer referência a uma pessoa cuja identidade não se conhece, sendo, portanto, um pronome relativo indefinido.


O diretor já sabe quem será o novo aluno, mas nós não fazemos ideia.


• CUJO é usado quando, em uma das frases, o termo a ser substituído está em relação direta com algo que ele possui ou de que é posse. Ao falar em posse, não precisamos nos focar em uma relação direta, ou seja, não precisamos dizer, por exemplo, que alguém é dono de outra pessoa - até porque isso é ilegal; mas sim que tem relações, como em que "alguém tem algo", sem necessariamente ser proprietário disso (um pai tem uma filha, um chefe tem um empregado; e vice-versa). Em suma, falamos sobre alguém que possui: 1) ou alguma coisa; 2) ou uma relação com outra pessoa (sem precisar tê-la).


A menina tem olhos azuis. A menina é a mais bonita da classe.

A menina cujos olhos são azuis é a mais bonita da classe.


O pai do menino morreu. O menino está sozinho na festa.

O menino cujo pai morreu está sozinho na festa.


Eu me lembro do sorriso da menina. A menina parou de ir ao clube.

A menina de cujo sorriso eu me lembro parou de ir ao clube.


ATENÇÃO: depois de usar cujo, não se utiliza o artigo definido. Isso porque o artigo já se apresenta contraído na terminação da palavra "cujo", sendo por esse motivo que podemos dizer CUJO, CUJA, CUJOS e CUJAS. A terminação - e, portanto, o artigo - irá variar de acordo com a palavra à qual ele se refere. Se a palavra for masculina e singular, como é o caso de "pai" e "sorriso", o pronome ficará também no masculino singular (CUJO). Se for masculina e plural, como é o caso de "olhos", ele a acompanhará, aparecendo como CUJOS; e assim por diante.

• QUANTO, que não é tão comumente usado como o resto dos pronomes, aparece apenas depois dos nomes indefinidos, por exemplo: tudo, todos, tanto(s) e tanta(s). Juntos, servem para fazer referência a pessoas ou coisas.


Seu sorriso foi tudo quanto desejei naquela hora.

(Mais comum: Seu sorriso foi tudo que desejei naquela hora)


Com QUANTO, chegamos ao fim desse pequeno grande resumo.

Gosto de dizer que os pronomes relativos são como atores substitutos em uma peça de teatro. Eles assumem temporariamente o papel que outras expressões teriam para evitar que a peça, ou melhor, a frase, fique repetitiva.

Não espero que tenham aprendido tudo sobre pronomes relativos com o meu texto, até porque nem eu mesma sei tudo (quem sabe, não é mesmo?); espero apenas tê-los ajudado a entender mais um pouco sobre esse aspecto da língua portuguesa.

Um pouco é relativo. Perto de tudo, é quase nada; mas perto de nada, é tudo.

É um ótimo lugar para começar.