DICA #11: TEMPORAIS

26/01/2018


TEMPORAIS

DICA #11

Existem três formas de situar as coisas no tempo. Algo pode estar no passado (ou antes), no presente (ou agora) ou no futuro (ou depois). Entretanto, o marco que define o que é cada coisa varia. Os cristãos, por exemplo, definem a noção de tempo a partir do ano de nascimento de Jesus Cristo, ou seja, antes do nascimento de Jesus e depois, o que chamamos, respectiva e vulgarmente de a.C. e d.C.; a partir da lógica cristã, podemos compreender como funciona a nossa própria lógica de compreensão do tempo. Temos certa noção de que há sempre um marco/ um momento definidor do que é o que em nossa linha temporal, se falamos do passado, do presente ou do futuro.

Na narração, os escritores também localizam os acontecimentos. O marco pode ser o narrador, ou então algum ocorrido muito importante na vida de um ou mais personagens. Posicionar as coisas no tempo significa criar planos temporais - um plano passado, um presente e um futuro; ainda que nem todos eles precisem ser usados. Esses planos não são estruturas físicas, como uma caixa, porém funcionam de forma semelhante a uma. Podemos colocar "coisas", ou melhor, eventos dentro deles. Sei que parece muito complicado dito assim, mas, na verdade, é bem simples.

Digamos que eu esteja escrevendo uma história nova. Nessa história, eu tenho certeza de que quero uma narração em primeira pessoa que faça uso do tempo verbal presente; de forma que decido estabelecer como marco o narrador: tudo será situado tendo por referência ele

No primeiro capítulo, que, naquele momento será o agora do personagem, tudo o que está dentro da caixinha PASSADO já vai ter acontecido. A caixinha PRESENTE está vazia porque, a cada capítulo, eu vou estabelecer um novo presente, uma vez que as coisas estão ocorrendo à medida que o narrador fala. Contudo, eu tenho certeza que, no momento em que eu comecei a narração, nada do que está na caixinha FUTURO terá acontecido. Isso vai acontecer ao longo da trama.



O marco que eu usei para falar para vocês agora foi o primeiro capítulo. Contudo, conforme a história for se desenrolando, a caixinha que representa o PASSADO, além de sempre manter os itens que a ela já foram atribuídos - porque é o único tempo que mantém as informações que recebe - também ganhará um ou mais elementos. A cada avançar de capítulo, o futuro se tornará presente; o presente virará passado; e o passado, por sua vez, manterá as informações iniciais, sempre tendo mais eventos/ideias ou situações acrescidos a si.

Se formos pensar, é assim que a vida acontece também, não é? Pegue como marco você. No presente momento, você está lendo meu texto. Antes - ou seja, no passado - você estava, por exemplo, vendo televisão. Depois - ou seja, no futuro - de lê-lo, você pretende escrever o texto para o desafio. Entretanto, tão logo esse texto chegue ao fim, lê-lo vai se transformar no passado, escrever no presente e o futuro já será outro. O tempo nunca para.

Agora que já sabemos o que são os planos temporais nas histórias e como eles estão sempre variando, surge-nos outra pergunta: de que forma podemos usar isso nas histórias?

A maneira mais comum que eu encontrei de aplicação disso são os famosos flashbacks. Não só em livros, mas em séries e filmes. Aquele famoso momento em que o personagem para e se lembra de um momento de seu passado, anterior ao que está acontecendo na trama, essencial para a história toda (ou não). Na escrita, às vezes o autor inclusive acrescenta um "flashback" antes de iniciar a volta no tempo, ou então destaca o texto em itálico.

Entretanto, a presença dos planos temporais não é sentida só assim. Às vezes, o escritor adianta um momento futuro da trama, seja narrando a imaginação de como ele será, seja antecipando mesmo, contando como vai ser de verdade. Pode ser também que o plano futuro apareça somente como uma expectativa que o personagem compartilha conosco:


"Ah, espero que dê tudo certo na minha formatura"
"Essa viagem vai ser o máximo"


O próprio tempo verbal no qual a história é narrada já é uma forma de aplicação dos planos temporais. Se você narra um livro inteiro no passado, quer dizer que aquilo tudo que está sendo dito é anterior ao agora. Entretanto, ali, dentro do enredo, as coisas são também umas anteriores às outras - eu posso ter já me formado, mas eu certamente nasci antes disso; e posso ter me casado depois, mesmo que, no agora de fora do livro, eu já seja casada. Então:


Letícia já se casou, se formou e nasceu. Tudo isso é passado, mas:
Primeiro, Letícia nasceu
Depois, ela se formou,
E, só aí, ela se casou.


Alguns passados são anteriores a outros.

O tempo é magnífico, seja como recurso narrativo ou não. Ele pode fazer maravilhas em uma história. Contudo, para saber usá-lo bem é preciso mais do que apenas conhecer os tão temíveis e famosos tempos verbais.

É necessário entender como o tempo é importante, determinante, para nós enquanto pessoas.