DICA #10: MAS É PAVÊ OU PRA FAZER SENTIDO?

18/01/2018


MAS É PAVÊ OU PRA FAZER SENTIDO?

DICA #10


"Não foi isso que eu quis dizer!"

No meio de uma discussão, quantos de nós já não ouvimos ou falamos algo assim? Entre o que dizemos e o que o outro entende existe uma distância que somos sempre obrigados a percorrer: é o caminho para produzir sentido. Provavelmente você já leu ou escutou, em algum lugar, a seguinte frase:

"Sou responsável pelo que digo, não pelo que você entende"

Será mesmo? Quando conversamos sobre a coerência, em um texto anterior, dissemos que a produção de sentidos é responsabilidade tanto de quem fala ou escreve quanto de quem lê ou escuta. É o princípio da cooperação, sem o qual a comunicação raramente funciona. Entretanto, a língua é infinita quando se trata de produzir sentidos; e, muitas vezes, suas possibilidades nos escapam. Nesses momentos, deparamo-nos com textos que nos soam vagos, incoerentes ou, até mesmo, ambíguos. O caso da ambiguidade, aliás, é muito curioso, porque não é raro para quem a produz sequer perceber que o fez.

Mas o que seria a tal ambiguidade?

A ambiguidade se dá quando uma palavra ou expressão possui mais de um sentido; ou seja, quando algo que dizemos pode significar, ao mesmo tempo, mais de uma coisa. De modo geral, as ambiguidades se desfazem no contexto, entendido, aqui, como a situação no mundo na qual a fala/texto ocorreu.

A origem da multiplicidade de sentidos pode ser diversa, de forma que existe mais de um tipo de ambiguidade. Os estudiosos nem sempre concordam sobre todos eles, por conta disso, vamos trazer para esse texto apenas aqueles mais recorrentes e sobre os quais há mais consenso; sem, no entanto, nos preocuparmos com terminologias.

O primeiro tipo é a ambiguidade gerada pelas palavras. Você já deve ter reparado nisso em algum momento durante a sua vida. Quer um exemplo? Digamos que eu estou caminhando, distraidamente, enquanto como uma manga, e, sem perceber, prendo a manga de minha camisa em uma cerca. Em seguida, digo:

Isso tudo é culpa dessa manga

De qual manga estou falando? Da que me distraiu ou da que ficou presa? Minha pergunta ficou ambígua graças à palavra 'manga', que tem mais de um significado na língua portuguesa. Essa duplicidade de sentido só poderá ser desfeita no contexto, embora não necessariamente vá ser.

No caso da palavra 'manga', seus dois significados não têm muita proximidade entre si, afinal, um é uma fruta e outro é uma parte da blusa. Mas no caso de 'pé', por exemplo, os vários significados são próximos. Imagine que uma mãe está atenta ao que sua filha está fazendo; ela, que estava de saia, senta-se numa cadeira já velha e bamba e ergue suas pernas, deixando-as abertas e expondo a calcinha, então sua mãe exclama:

Cuidado com essas pernas, menina!

As pernas tanto podem ser as da criança, pois ela as posicionou de uma forma que a expõe, quanto as da cadeira, que já estão bambas por causa da velhice e oferecem perigo. Mais uma vez, só saberemos o real sentido da frase se observarmos a situação na qual ela foi dita. Entretanto, nesse caso, pé da cadeira e pé do menino têm significados próximos, pois a parte do móvel é designada tendo em vista o que é o pé humano (é "como se fosse" um pé; vimos esse tipo de expressão quando falamos sobre metáforas).

O segundo tipo é a ambiguidade gerada pelo uso da preposição. Sei que pode parecer estranho à primeira vista, mas algumas preposições, quando usadas em determinadas frases, podem gerar mais de uma leitura, ou seja, mais de um sentido. Observe as seguintes frases:

Nossa, mas tinha que ser o burro do Paulo

O outro tá lá, todo empolgado sobre o carro de bombeiro

No primeiro caso, ainda se pode argumentar que a ambiguidade se deve à palavra 'burro'; entretanto, se tirarmos a preposição, a leitura de 'burro' como "desprovido de Inteligência some", restando uma terceira que nada tem a ver com Paulo possuir o burro ou ser burro, mas, sim, com o burro se chamar Paulo; de modo que, nesse caso, a preposição faz toda a diferença. Podemos comprovar isso no segundo caso, quando 'sobre' pode corroborar tanto para a leitura de "ele estava empolgado e estava em cima do carro de bombeiros" quanto "ele estava empolgado por causa do carro de bombeiros".

O terceiro tipo é a ambiguidade gerada pela forma como a frase é construída. Dizendo assim, assusta um pouco, mas na verdade é bem simples. Às vezes, quando falamos, a forma com que formulados a frase a torna ambígua. Se eu digo:

Estamos contratando mulheres e homens esforçados.

Isso quer dizer que estou contratando homens e mulheres, tendo ambos que serem esforçados; ou apenas os homens precisam ser? Pela ordem da frase, podemos fazer ambas as leituras, uma vez que a estruturação a deixou ambígua. É o mesmo caso de:

Nossa, estou ficando com vontade de ir à praia de novo.

Eu quero ir de novo, ou estou mais uma vez com vontade?

O quarto tipo é a ambiguidade gerada pela múltipla possibilidade de referência. Na frase:

Isadora não gostava que Nathan brincasse com seu irmão.

'Seu' pode se referir tanto ao irmão de Isadora quanto ao do próprio Nathan. Isso acontece porque 'seu' é um pronome e, como tal, pode se referir a mais de um elemento de frase ou, até mesmo, a um elemento de fora; no caso, por exemplo, de se tratar do irmão da pessoa com quem o falante está falando.

O quinto tipo é a ambiguidade gerada pelos papéis que os elementos da frase desempenham. Se:

Roberto cortou o cabelo.

Ou:

Abigail pintou as unhas.

Ele pode ter cortado tanto o cabelo num cabeleireiro quanto cortado o cabelo de outra pessoa; ou ainda ter cortado o cabelo dele mesmo. Da mesma forma, Abigail pode ter pintado as próprias unhas, ido ao salão para alguém pintar, ou ser a manicure e ter pintado as unhas de uma outra pessoa. Tudo dependerá do contexto, que dirá se Roberto e Abigail foram os agentes das ações de pintar e cortar, se foram beneficiados por ela - ou se ambas as coisas. Isso acontece porque esse tipo de verbo permite tanto que você mesmo faça a ação quanto que alguém faça a ação por você. É o mesmo caso de fotografar, por exemplo.

O sexto e último tipo é a ambiguidade gerada pela forma como as palavras são pronunciadas. Para essa, eu tenho um exemplo especial em homenagem ao final de ano:

Mas é pavê ou pá comer?

Na fala, a palavra 'pavê' tem o mesmo som da pronúncia que os falantes comumente dão a 'pra ver'. Por isso a piadinha do tiozão do pavê funciona tão bem há anos - e deve funcionar por muitos mais, ainda que já estejamos cansados dela. Nesse caso, a frase só tem mais de um sentido oralmente, pois, quando a vemos escrita, sabemos se se trata de "pavê", realmente, ou "pra ver".

Ao longo desse texto, pudemos perceber que existem várias formas de gerar ambiguidade, seja intencionalmente ou não. É importante ressaltar, inclusive, que apesar de a duplicidade (ou mesmo a multiplicidade) de sentidos poder nos deixar em situações embaraçosas, ela também pode ser usada a nosso favor, tanto para gerar humor quanto em poesias ou mesmo em narrativas. O fato de uma expressão dizer mais de uma coisa pode ajudar um assassino em seu depoimento; ou quem sabe constranger o garoto que pela primeira vez fala com a pessoa de quem gosta. A imaginação é o limite. E nós podemos imaginar quão expandido esse limite pode ser.


REFERÊNCIA:

CANÇADO, Márcia. Manual de semântica: noções básicas e exercícios. 2. ed. revisada. Belo. Horizonte: Editora UFMG, 2008. 184 p.