DiCA #08: CRASE: UMA HISTÓRIA DE CONTRAÇÃO

12/12/2017


CRASE: UMA HISTÓRIA DE CONTRAÇÃO

DICA #08

Imagine que você está caminhando por um corredor de hospital. Está tudo tão calmo que sequer parece haver uma alma viva ali. De repente, você ouve um grito vindo do quarto ao seu lado e uma enfermeira sai rapidamente. Pela porta, você vê que, deitada na maca, está uma mulher grávida, suando e parecendo morrer de dor. Então, automaticamente, você supõe o motivo do grito.

Ela sentiu uma contração.

O grito era indicativo dela. Sabe o que mais é indicativo de contração?

O acento grave. No caso, a contração que ele indica é a crase.

Letícia, você está dizendo que o português está grávido? Certamente que não, mas, depois dessa história criativíssima, duvido que você vá esquecer o que eu disse. Agora, vamos explicar o que eu falei, porque até o presente momento tudo ainda pode parecer muito confuso.

Primeiro de tudo, precisamos esclarecer uma coisa: o acento grave não muda a pronúncia da palavra. Ele não é um acento indicativo de tonicidade, mas de crase. Portanto, a crase não é o nome do acento.

Dito isso, vamos explicar a contração. Gramaticalmente, contração significa a união e transformação de dois termos iguais em um único termo; a palavra crase, por sua vez, denomina especificamente a contração que ocorre entre dois "A". De forma simples:

À = A + A

A conversa complica quando vamos falar quais são os dois A que se fundem. O primeiro é mais simples: sempre será a preposição A. Ela aparecerá sempre que a regência do verbo demandá-la; ou seja, toda vez que um verbo necessitar de um complemento preposicionado (os verbos transitivos indiretos são os que fazem isso, lembram-se? Eles precisam de uma preposição que faça a conexão entre eles e seu complemento. O complemento preposicionado resultante chama-se objeto indireto) e a preposição exigida, por regra da gramática normativa, for a A. No uso oral cotidiano, substituímos com frequência por "para", "em", etc.

Como exemplos de tais verbos, temos aspirar (no sentido de desejar algo); assistir (no sentido de ver); concorrer (no sentido de disputar um prêmio, por exemplo); e, o mais conhecido, ir (no sentido de destinação), etc.

O segundo, no entanto, conta com três principais: o artigo A; ou o A inicial presente nos pronomes demonstrativos AQUELE(S), AQUELA(S), AQUILO; ou o A presente no pronome relativo A QUAL

Assim, considerando os casos já citados, a crase ocorrerá em três situações, nas quais você deverá usar o acento grave:

• Quando, em uma frase, ocorrer o uso da preposição A e, logo depois, houver uma palavra feminina (que, portanto, exige o artigo A).

Eu vou à praia hoje

(ir para = ir a + a praia)

• Quando, em uma frase, ocorrer o uso da preposição A e, logo depois, houver algum dos pronomes demonstrativos: aquele(s), aquela(s), aquilo).

Cheguei àquela sala de cinema lotada, morta de preguiça de assistir àquele filme nojento.

(Chegar a + aquela sala de cinema; assistir a + aquele filme)

• Quando, em uma frase, ocorrer o uso da preposição A e, logo depois, houver o pronome relativo 'a qual' (ou seu plural, 'as quais').

Não desista da posição à qual você aspira

(Aspira a + a qual)

Os outros três casos que veremos a seguir são como ramificações do primeiro, pois também tratam de palavras ou expressões femininas que, portanto, contam com a presença do artigo 'A', ainda que seja no plural. Entretanto, como são casos específicos que podem gerar certa dificuldade, vale a pena observá-los mais atentamente. 

A crase também ocorrerá quando:

• Quando, em uma frase, ocorrer o uso da preposição A e, logo depois, houver a expressão "a moda (de)" ou "a maneira (de)", mesmo que ela fique subentendida. 

Comi frango à milanesa 

(Frango a + a (moda) milanesa)

Comi arroz à moda da casa

(Arroz a + a moda da casa)

• Quando, em uma frase, ocorrer o uso da preposição A e, logo depois, houver uma expressão indicativa de hora, pois as horas, no português, são consideradas termos femininos. Caso a preposição que acompanha as horas não seja "A", não ocorre a crase porque não haverá a presença de duas vogais iguais.

Sairemos às sete horas 

(a + as sete horas)

Sairemos até as sete horas

(até + as sete horas - não ocorre crase porque a preposição, aqui, é a 'até')

• Quando, em uma frase, estiver presente uma locução (ou seja, duas ou mais palavras funcionando para gerar um só sentido) iniciada pela preposição A e, logo depois, conte com a presença de uma palavra feminina.

Estávamos à deriva 

(a + a deriva)

OBS: Em casos como em 'à beça', apesar de o termo sozinho ('beça) ser considerado feminino, ele não possui significado sozinho, apenas dentro da locução.

Para reconhecer a crase é necessário, então, atentar para três coisas principais: primeiro, a regência verbal, a qual permitirá identificar quais verbos exigem a preposição A (tais como ir, chegar, aspirar, etc); segundo, a forma de se utilizar o pronome relativo 'a qual'; terceiro, e talvez mais simples, reconhecer a presença de palavras femininas que exijam artigo; quarto, à presença da expressão 'a moda de' quando está subentendida; quinto, ao uso das preposições junto às horas.  

Existe, no entanto, uma dica para identificar se haverá ou não crase, de forma a empregar corretamente o acento.

• No caso da presença de palavra feminina, tente substitui-la por uma masculina; se surgir a forma AO, então houve crase na forma feminina.

"Obedecer à mãe" exige mesmo crase?

Substituição por palavra masculina: Obedecer AO pai

A dica, infelizmente, tem o problema de se aplicar unicamente aos casos em que a crase ocorre com preposição + palavras femininas. A boa notícia é que essa é a ocorrência mais comum da crase e também a que conta com um maior número de casos; mas, além dela, tem as que já citamos: com os pronomes demonstrativos aquele(s), aquela(s), aquilo e com os pronomes relativos a qual/ as quais.

Hoje em dia, temos dois impasses no que diz respeito à crase e, portanto, ao uso do acento grave. O primeiro é o fato de que, devido ao que chamamos variação linguística e, claro, devido ao uso oral da língua, muito da regência normativa dos verbos (aquela que consta nas gramáticas que estudamos no colégio) já se perdeu. Por isso, às vezes, é tão difícil saber se um verbo exige ou não a preposição A, já que, não raro, o uso cotidiano da língua já suprimiu essa preposição.

O segundo impasse é o fato de que, frequentemente, vemo-nos às voltas com uma pergunta perigosa: mas, afinal, para que crase? Ou, melhor formulando: para que demarcar graficamente, com acento grave, a ocorrência da crase?

A resposta mais direta para isso é: desambiguação.

Senta que lá vem história.

Imagine que, numa feira antiga, em um mundo onde a escravidão e o leilão de pessoas são corriqueiros, uma jovem rica está assistindo a uma venda de homens de todos os tipos: brancos, altos, baixos, ruivos, morenos... Até que seu pai, decidido a lhe dar um dos homens de presente de aniversário, aponta um e pergunta: "Que tal este?"

A menina, exasperada, responde:

- Não me dê aquele homem!

Do outro lado, naquela mesma feira, havia uma menina sendo leiloada. Nova, ainda entrando na adolescência, ela acaba de ser vendida a um homem muito mais velho. Desesperada, ela grita para seu carrasco:

- Não me dê àquele homem!

Obviamente se trata de um caso fictício, porque eu claramente tenho uma queda por histórias estranhas, mas serve para ilustrar bem o que falei sobre a desambiguação. O acento grave, naquelas situações, foi o que indicou a presença da crase que diferencia a menina a quem se daria algo da menina que seria dada a alguém; pois, como o verbo DAR envolve um ALGO que é dado PARA ALGUÉM, a crase determina a diferença entre o algo dado e o recebedor desse algo.

Entretanto, como não só de desambiguação vive o homem, o maior motivo para se aprender a crase é conhecer um pouco mais da gramática normativa do português. Embora ela não seja a gramática mais importante do mundo, ela ainda é essencial para quem deseja, por exemplo, prestar concursos e, claro, para nós que amamos ler e escrever, uma vez que é pela norma padrão que nos pautamos.

No mais, espero que o bebê fictício tenha nascido bem.