DESAFIO MODUS MALEFICARUM #02: A MELHOR RESENHA

18/11/2017


O CAÇADOR E A CAÇA NO DIA DAS BRUXAS


"O Infindável Dia das Bruxas", do escritor Oliveirando, traz em seu escopo uma narrativa densa e sombria, que mistura elementos fantásticos com uma carga de realidade. Não bastasse isso, o autor ainda nos apresenta logo no início uma música instrumental que casa perfeitamente bem com o tom da história, permitindo uma maior imersão do leitor que ousa se aventurar pelos parágrafos que seguem.

A trama nos apresenta o Caçador de Bruxas, que sequestra e executa mulheres, todos os anos, no dia 31 de outubro, no intuito de livrar a sociedade da maldade inerente daqueles seres sombrios. No entanto, nesse ano específico, sua caçada toma um rumo bastante inesperado e o que parecia ser somente mais um Halloween, como todos os outros, acaba se tornando num pesadelo infindável, como o próprio título pontua.

Diferentemente dos justiceiros comuns em obras do gênero, o caçador não é movido pelo puro e simples sentimento de justiça. Isso fica claro em seu diálogo com a Maria, a vítima do ano. Ele sentiu na pele as mazelas de ter de conviver com uma bruxa e agora se dedica a eliminar aqueles seres impuros do mundo, agindo como um vingador, não se importante de arcar sozinho com todo o trabalho sujo. Apesar dos métodos imprecisos, uma vez que o homem não é capaz de identificar quais mulheres são, de fato, bruxas ou não, ele encara a morte de jovens inocentes como uma margem de erros necessária para libertar o mundo de algo muito pior.

Os diálogos entre os dois personagens que compõem a trama são absolutamente instigantes. Diferentemente dos clichês "deixe-me ir" ou "por favor, não me mate", a jovem sequestrada busca descobrir o que motiva o caçador a praticar aquelas atrocidades, nos permitindo conhecer mais sobre o seu passado e saber o que exatamente o levou a praticar aqueles atos de extermínio. Ele é taxativo em afirmar que: "é por um mundo melhor que eu escolhi te matar".

Chegando na capela abandonada (local mais do que adequado para exorcizar uma bruxa), os acontecimentos que sucedem são absolutamente imprevisíveis, até mesmo para o mais sagaz dos leitores. Maria não é quem parecia ser e o tão destemido caçador vacila ao demonstrar uma fraqueza manifestamente humana. No final das contas, somos todos humanos. Ou será que não?

Já nos momentos finais da trama, o escritor peca (ainda que minimamente) em não explorar um pouco mais o diálogo entre os personagens, que de tão misteriosos e instigantes, acabaram por deixar umas poucas pontas soltas. Você quer ler mais, você quer saber mais e, infelizmente, não tem nenhum mais.

A escrita é objetiva e fluída, uma vez que o autor não se perde em detalhes desnecessários, buscando explorar aquilo que realmente importa dentro da história: a personalidade de cada personagem. Essas características não tornam o cenário menos palpável nem dificultam sua visualização. Muito pelo contrário, é como sentar numa sala de cinema e se surpreender com cada detalhe narrado.

A leitura do conto, em um quarto escuro, acompanhado do instrumental sugerido pelo autor, garante alguns sobressaltos e respirações suspensas, tornando a leitura dessa obra uma experiência única. Uma história instigante, que foge do óbvio e te surpreende de diversas maneiras. Sem dúvidas, uma leitura prazerosa que nos deixa com um saldo bastante positivo ao final.