CRÍTICA #11: OS DEUSES, OS HOMENS E AS MÁQUINAS: O QUE É HUMANIDADE?

21/04/2018


OS DEUSES, OS HOMENS E AS MÁQUINAS: O QUE É HUMANIDADE?

CRÍTICA #11

SINOPSE: Westworld é um parque temático futurístico para adultos, dedicado à diversão dos ricos. Um espaço que reproduz o Velho Oeste, povoado por andróides - os anfitriões -, programados pelo diretor executivo do parque, o Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins), para acreditarem que são humanos e vivem no mundo real. Lá, os clientes - ou novatos - podem fazer o que quiserem, sem obedecer a regras ou leis. No entanto, quando uma atualização no sistema das máquinas dá errado, os seus comportamentos começam a sugerir uma nova ameaça, à medida que a consciência artificial dá origem à "evolução do pecado". Entre os residentes do parque, está Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood), programada para ser a típica garota da fazenda, que está prestes a descobrir que toda a sua existência não passa de bem arquitetada mentira. 

DIRETOR: Jonathan Nolan e Lisa Joy (2016)
GÊNERO:
Faroeste, Ficção Científica e Suspense.
DISTRIBUIDOR: HBO | EUA

Há de se admitir que o fôlego se foi, a ânsia se consumiu e, impreterivelmente, ministramos nossos receios e devaneios durante a série que estrela robôs e humanos: um contra o outro, ou todos contra eles mesmos. Contudo, ao contrário dos filmes e seriados cotidianos que nos apresentam humanos como os senhores da verdade e robôs como vilões para destruir a pobre e delicada humanidade, encontramos em Westworld duas questões fundamentais que vão de encontro ao que somos, ao que nos tornamos, ao que desejamos nos tornar e ao que escondemos.

O que representa a humanidade em Westworld?
Quem representa a humanidade em Westworld?

Desde o episódio piloto, essas duas duras questões martelaram na minha cabeça. No primeiro episódio, vemos a crueldade humana - ou melhor, a natureza humana. Dessa forma, não podemos deixar de nos perguntar o que seria humanidade - esse conceito que, no dicionário, vemos como algo tão positivo como se fosse um sinônimo da palavra bondade - e por qual razão não é definido simplesmente como todas as características, inclusive os defeitos, humanas. Westworld nos abre para os múltiplos questionamentos sobre nós mesmos e nossas ações enquanto investe, como uma proposta ao expectador, em uma tentativa de compreender a mente maquinaria dos robôs até a chegada da consciência nessas criações humanas, uma bela alegoria sobre a criação do próprio mundo e dos próprios humanos.

No primeiro episódio, vemos robôs agindo como homens de faroeste, movidos pelo seu tempo e por filosofias que vão de encontro com nossa contemporaneidade - mas também não podemos nos recusar a perceber a existência daquele doce herói de filme que precisa redimir seus pecados na figura de Teddy Flood (James Marsden). Aquele mesmo herói que estamos acostumados a nos apegarmos como alguém que desejamos nos tornar ou queremos, profundamente, ter para nós mesmos como amigo, amante ou confidente - não necessariamente mais de uma das opções acima e nem mesmo uma exclusiva. Ele é uma figura bela e com um grande mistério em suas mãos em forma de passado, apaixonado pela mocinha que precisa ser salva, representada pela personagem Dolores (Evan Rachel Wood). Quem não se encantaria por essa narrativa criada e recriada durante toda a história da literatura mundial?

Então, ele morre. A mocinha é levada pelo vilão e tudo que era para ser um final perfeito e feliz, tornou-se um circo de pesadelos em nossa cabeça, onde as diretrizes da justiça tendem para o lado negro da força. Onde está a justiça? Você pode se perguntar. O que é a justiça? O que está acontecendo? São perguntas rotineiras quando a situação se torna tudo que você não espera, um belo plot twist, conhecido também como reviravolta do roteiro.

Exceto que, na verdade, não. Não há nada a ser questionado para os personagens dentro da narrativa. Eles, o herói e a mocinha, são robôs. Então, mais uma questão surge diante de nós: Robôs precisam de justiça?Que diferença faz, certo? Eles não morrem. Eles não sentem. Eles são programados! Não precisam de piedade e nem misericórdia. A morte, a piedade e a misericórdia, nesse momento, tornam-se uma - se alguém não morre, se alguém não sente (mesmo que grite, implore, barganhe e chore), principalmente, se alguém não é humano, que diferença faz?


"Você não pode brincar de Deus sem estar familiarizado com o Diabo."


Nesse momento, acredito que a série já contribui o suficiente com o que ela deseja passar: a justiça dos homens, para quem vai e o que é? A humanidade dos homens, onde está e o que é? Quem é merecedor da justiça, máquinas ou seres humanos? Podemos ver pilares de importância, entre homens que pagam - como diz Logan (Ben Barnes) - quarenta mil dólares a cada dia e robôs que são baleados, estuprados e amordaçados todos os dias. Contudo, nós podemos ir um pouco mais a fundo e, com isso, podemos explorar a nossa própria sociedade: nós não vemos a mesma coisa em nosso cotidiano? Qual a diferença entre robôs, dentro dessa narrativa, e as pessoas menos favorecidas em nossa sociedade? Não somos todos, dos menos endinheirados aos mais trabalhadores, pequenas peças para grandes empresas que nos usam e depois jogam fora se for necessário? A série nos proporciona essa perspectiva dentro de uma das narrativas que mais surpreendeu o público - ou nem tanto, para os que mais se atentaram aos detalhes.

Embora essa leitura seja possível e também verossímil com o que é transmitido pelo seriado, a série vai ainda mais além, na minha concepção. Nós podemos perceber três pilares fundamentais sendo trabalhados dentro dessa narrativa que é digna de aplausos de Isaac Asimov e, se eu puder ser um pouco ousada, de todos os escritores que criaram mundos muito bem construídos, como no caso de Tolkien e Lewis. O mundo é regido por três pilares mistos e religiosos, dentro dessa narrativa, o pilar dos robôs, dos homens e dos deuses. Dentro disso, há uma mistura tão intensa que nos chacoalhamos junto. Os robôs que são humanizados - e nos estrelam, muita das vezes -, os homens que são divinizados - estrelando tanto grandes figuras da economia mundial como a própria humanidade em si - e os deuses que se tornam parte da mente dos robôs, literalmente, como uma voz que sussurra e, ao mesmo tempo, empurra a moral. No final das contas, os deuses são os robôs com a imortalidade que desejamos alcançar.

Vamos colocar essa ideia em prática. Os personagens mais humanos, e onde acredito que a série apresenta a melhor parte da humanidade - do semanticismo comum da palavra, na verdade - está ao lado dos robôs, vemos isso nas emoções de Teddy, por exemplo. Ele é um personagem gentil que está em busca de salvar a mulher que ama e morre quantas vezes forem necessárias nesse objetivo, sem saber que é capaz de retornar, obviamente.

Não menos que os outros, e talvez até mais consciente disso que os demais, Ford (Anthony Hopkins) se diz - mais de uma vez - dono e deus de Westworld por ser seu criador, logo, um homem se põe no lugar de Deus e se admite como essa divindade pela dominação, pelo controle. Mas, se todos nos atentarmos bem, percebemos que ele não é o único. Todos os homens dentro desse cenário, poderosos e ricos senhores da indústria, acreditam que são deuses porque são "imortais", inclusive O Homem de Preto (Ed Harris) e William (Jimmi Simpson). Logan, por exemplo, parece ser o mais explícito quanto a isso, sempre consumido pela sua ganância e pela sua soberba ao falar do dinheiro, da empresa e de como é superior. Os homens, dentro de Westworld, são homens ricos. Esses mesmos homens ricos acreditam ser donos do mundo e se comportam como se fossem superiores, como se fossem deuses. Isso não ocorre somente na ficção, mas dentro dela percebemos como a arte imita a vida, em suas entrelinhas, claro.

O terceiro ponto, talvez soe o mais confuso entre eles - e pode ter algum spoiler -, por fim é: os deuses são os próprios robôs. Dolores ouve uma voz. Muitos outros ouvem uma voz, a voz é Arnold. Mas quem é Arnold? Essa resposta responde a esse argumento. E é de fato Arnold essa voz? Outra pergunta que também o responde. Quem assistiu a série, consegue, muito provavelmente, entender aonde quero chegar com esse parágrafo. Quem não, assista, porque vai ser capaz de entendê-lo. Os robôs são os deuses, porque é dentro deles mesmos - dentro de nós e do nosso (in)consciente - que as divindades existem. Inclusive, são aqueles que jamais morrem, como as divindades e como o que a humanidade mais deseja para si: a imortalidade. Muito embora o inconsciente seja negado durante a série pela perspectiva de Ford, vale lembrar.

A série percorre a busca da consciência: de sua criação à sua existência. A busca da humanidade - não como uma bondade, mas sim como a revelação do que é a consciência, de como ela nos influencia e também como influencia nossas ações. Temos consciência de fato? Somos livres? Nossas ações são coordenadas ou ordenadas por algo ou alguém? Muitos acreditam - e é relatado na série, de fato - que os primeiros homens ouviam uma voz que lhes sussurrava sobre suas ações. Ainda hoje, encontramos pessoas que acreditam ouvir essa - ou outra - voz e, por conta disso, desde o passado, massacram muitos por conta dela. Além disso, os próprios robôs precisam questionar a sua realidade para perceberem o controle, então, buscarem o livre-arbítrio, tal como os homens fizeram e ainda fazem.

Induzida pela realidade vigente, embebida pelo estudo psicológico sobre a psique humana, Westworld traz consigo muitas variantes e muitas leituras. Westworld é capaz de assumir muitas posições enquanto trabalha oposições. Digo isso justamente porque podemos questionar, dentro da proposta da série, a nossa moralidade, a nossa justiça, a nossa consciência e do que ela é feita, também podemos buscar respostas sobre livre-arbítrio, entre tantas outras filosofias, ideias e pensamentos que percorrem os homens e a história da humanidade, os robôs e os deuses durante a narrativa - ou as cem que estão ali flutuando. No fundo, o que buscamos e o que está dentro dela, dentro dessas múltiplas visões e abordagens que a série pode ter, são as perguntas que continuam a martelar na minha cabeça: o que representa e quem representa a humanidade? O que é humanidade?

Westworld ainda está nos ajudando a desvendar. Mas não se esqueça:

"Esses prazeres violentos têm finais violentos"