CRÍTICA #10: UMA QUASE PERDA DE TEMPO

10/04/2018


UMA QUASE PERDA DE TEMPO

CRÍTICA #10

SINOPSE: Meg Murry e seu irmãozinho, Charles Wallace, ficaram sem o seu pai cientista, o Sr. Murry, há cinco anos, desde que ele descobriu um novo planeta e usou o conceito conhecido como um tesseract para viajar para lá. Aliado do colega de classe de Meg, Calvin O'Keefe, e guiado pelos três misteriosos viajantes astrais conhecidos como Sra. Whatsit, Sra. Who e Mrs. Which, as crianças iniciam uma perigosa jornada para um planeta que possui todo o mal no universo. 

DIRETOR: Ava DuVernay
GÊNERO: Família e Fantasia
DISTRIBUIDOR: Disney | EUA

Começar um texto dizendo que este filme é "uma quase perda de tempo" pode parecer um tanto duro e negativo, mas eu tenho certeza que diversas outras pessoas diriam que é uma perda de tempo completa.

Eu preciso confessar que a obra original tem dois pontos muitos positivos, na minha concepção, porém, todo o enredo é esquecível, padrão e comum. A história de Madeleine L'Engle é fascinante por dois aspectos: o primeiro é a mistura do fantasioso e da ficção científica, mesclando dois mundos aparentemente antagônicos e fazendo esse arranjo muitíssimo bem; o segundo, não menos importante - e é o que me faz valorizar a obra por si própria - é simplesmente como a autora desenvolveu a percepção de mundo das mais distintas formas, relembrando os povos mais antigos que viam o abstrato como concreto e o concreto como abstrato em contraposição com a modernidade.

Ou seja, a concretude estava nos sentimentos, os quais literalmente sentimos. Em oposição, o abstrato seria o que a nossa percepção corporal toca: os olhos que veem, a boca que experimenta e os ouvidos que ouvem.

No entanto, a adaptação cinematográfica em nenhum momento abrange o segundo aspecto e, sinceramente, o primeiro deixa muito a desejar. Renegando completamente os personagens que tangem à percepção e criam a filosofia contrária à humana - ou melhor, apresentando-os em um frame, ou seja, numa fração de segundo -, o filme peca em transformar a história na tela em algo a e para se pensar, num aspecto profundamente humano, que casaria muitíssimo bem com a lição apresentada a respeito de nos aceitarmos como somos, incluindo, aceitar os outros como eles são.

O filme enfatiza muito o fato da aceitação pessoal e esquece que devemos, também, aceitar as diferenças enquanto tentamos trabalhar como nos vemos. Logo, a lição - que é um pilar narrativo - não me pareceu completamente satisfatória justamente por esquecer as ferramentas disponíveis para deixar isso claro e também por focar em somente uma parte do problema. As crianças que vão assistir ao filme precisam aceitar a si mesmas, mas há aquelas crianças que precisam aceitar o outro como ele é, pois há a necessidade dessa via de mão dupla.

A diretora Ava DuVernay (Selma) trouxe para a narrativa um aspecto que essencialmente vale a pena e, por ele, o filme é quase uma perda de tempo (ao invés de total perda de tempo). Embora não tenha sido tão bem executado por conta do roteiro fraco, o que o filme traz de excelência é a visão geral e a concepção comum dos estereótipos negros como negativos e, a partir do entrelace narrativo, a trama desmistifica e mostra que essa ideia não faz sentido, pois ser quem somos, termos características nossas, sempre será positivo.

Conhecemos ou ouvimos falar de histórias de crianças negras que sofrem com a sua aparência porque ela não é prestigiada pelos padrões eurocêntricos. Constantemente, crianças se deprimem ou se sentem oprimidas porque acreditam que não são bonitas, que sua cor de pele não é boa, o seu nariz ou o seu cabelo crespo. O filme traz esse tipo de aceitação e por ele vale à pena, porque, ao colocar uma protagonista negra e a maior e a líder entre as estrelas - a senhorita Qual (Oprah Winfrey) - como personagens-centro desse diálogo, conversando sobre aceitação, elas também falam disso e deixa-se claro, constantemente, como Meg (Storm Reid) se sente a respeito de sua aparência.

O filme em si tem um jogo de atores que mostram diversidade do início ao fim, sendo escolhas bem interessantes por parte de DuVernay. No entanto, as atuações e o roteiro deixaram muito a desejar. Eu entendo que a senhorita Qual é um dos principais pilares do filme em relação a aceitação de Meg, no entanto, eu não conseguia parar de ver a própria Oprah, e não vi de fato a personagem. Da mesma forma, embora a personagem principal seja bem interessante e seus defeitos sejam a ênfase, a atuação de Storm Reid não me convenceu, por mais que eu tentasse acreditar nela.

Outro personagem - e ator, claro - que não faz qualquer diferença na narrativa é Cavil (Levi Miller), que possui como única utilidade elogiar o cabelo da protagonista. Nós precisamos nos aceitar por nós mesmos e não porque alguém diz isso para nós, por isso, não só é um incômodo a sua função como me parece desnecessária. Sua trama é rasa, com um problema familiar bem distante ao do livro e com muito menos profundidade. O personagem tanto quanto a atuação podem ser definidos como ensossos e, sim, dispensáveis.

Entendo que DuVernay queria dar ênfase a aceitação pessoal e ela mesma lançou um vídeo dizendo que o filme era específico para crianças de oito a doze anos. No entanto, soa como uma desculpa esfarrapada, porque nenhuma criança pararia quieta em uma narrativa que não diverte e não faz sonhar, pois é uma trama que joga cena atrás de cena. Se era focado no universo infantil, não pareceu. Somente uma cena durante toda a história faria uma criança sorrir e achar fantástico, o resto, definitivamente, seria descartável.

Dessa forma, é necessário retomar o primeiro aspecto que mencionei de interessante na obra original: a mescla entre fantasia e ficção científica.

Por conta do roteiro e também do que é apresentado como pilar narrativo, a ficção científica e a fantasia foram deixados de lado. A função do fantástico é fazer sonhar enquanto o cientificismo dá base para isso; o filme traz esses aspectos tão apagados que eles passam despercebidos, ainda que sejam o centro de tudo. Pode soar confuso, no entanto, a ênfase dada para a aceitação é tão constante que a narrativa parece muito mais uma lição de moral a cada cena do que de fato o que deveria ser: uma história contada para crianças que mostra as possibilidades do mundo e o quão fantástico é isso, ao mesmo tempo, ensinando-nos sobre aceitação (no caso do filme, aceitação da criança negra; no livro, toda e qualquer aceitação).

Entretanto, seria incorreto da minha parte culpar somente o roteiro, porque a direção também tem a sua parcela de responsabilidade. Todo o filme foi filmado de forma que parece ser aleatória, ainda que não seja, sempre enfatizando as expressões mal-acabadas da atriz, ou melhor, da personagem, que não consegue dar conta de levar o filme; o excesso de cores em tela, ao invés de nos trazer uma palheta multicolorida que não canse os olhos, faz justamente o oposto, exagerando nos tons vibrantes; os atores, embora possua uma parte do elenco com renome, também não trazem grandes atuações e não causam comoção. Acredito que esses aspectos caem na mão da diretora que não sabe trabalhar a fantasia porque não faz parte do gênero que ela costuma trabalhar (documentários, por exemplo).

O maior problema com o trabalho apresentado na adaptação de Uma Dobra no Tempo gira em torno do simples fato de que deveria ser uma narrativa essencialmente de fantasia e ficção cientifica, porém não vi isso. Pelo contrário, o filme apresenta muito mais uma moral do que a diversão e a aventura características do gênero que se expande e vai além por ter conceitos físicos aos quais se embasar (mesmo que diga que nós, humanos, sejamos incapazes de compreender a sua complexidade).

Embora tivessem flores falantes e uma criatura alada diferente de tudo que já vi, eu não senti a fantasia com exceção desse momento, eu não senti o universo mágico e isso foi decepcionante porque eu queria ver, eu queria sentir. E, infelizmente, preciso confessar que sem o aspecto mais forte da direção de DuVernay, o filme seria uma perda de tempo total.


 REFERÊNCIAS

L'ENGLE, Madeleine. Uma Dobra no Tempo. Tradução Erico Assis. 1ª ed. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2017.