CRÍTICA #09: VIVENDO ENTRE DOIS MUNDOS

03/04/2018


VIVENDO ENTRE DOIS MUNDOS

CRÍTICA #09

SINOPSE: Em 2044, Wade Watts, assim como o resto da humanidade, prefere a realidade virtual do jogo OASIS ao mundo real. Quando o criador do jogo, o excêntrico James Halliday morre, os jogadores devem descobrir a chave de um quebra-cabeça diabólico para conquistar sua fortuna inestimável. Para vencer, porém, Watts tem de abandonar a existência virtual e ceder a uma vida de amor e realidade da qual sempre tentou fugir.

DIRETOR: Steven Spielberg (2018)
GÊNERO: Ação e Ficção Científica
DISTRIBUIDOR: Warner Bros | USA


Em um tempo em que a tecnologia floresceu e o mundo real declinou até se tornar vazio de esperanças, encontramos em Jogador Nº 1 um possível futuro, caracterizado como uma distopia, que nos mostra como degradamos a natureza, as nossas riquezas e nos afundamos cada vez mais na era digital.

O mundo real e a valorização dele são o ponto chave da crítica tanto do filme quanto do livro, pois ficamos imersos por tempo demais, tentando ser algo que particularmente não somos, mascarados e vivendo entre dois mundos como se fôssemos duas pessoas ao mesmo tempo: o que somos e em que realidade devemos viver?

Na era em que a tecnologia toma cada vez mais espaço e se presentifica a cada instante em nossas vidas, encontramos em Jogador Nº 1 o exagero disso. Esse exagero é muito bem caracterizado pelo próprio efeito da câmera, uma das ideias - ao meu ver - mais brilhantes do filme.

O narrador e protagonista é o jovem Wade Watts, que não possui nenhuma esperança e nem expectativas com o mundo real, vendo no OASIS - um jogo de realidade virtual - a sua verdade e o mundo em que realmente é ou deseja ser alguma coisa. Essa impressão não se dá somente com a fala explícita do personagem em sua prolongada narração, mas também pela própria saturação da câmera que, no princípio do filme, é praticamente um preto e branco que vai, aos poucos, enquanto a narrativa se dá, ganhando cor. Enquanto vive a experiência de sua própria história, a câmera ganha vida com a própria experimentação do personagem.

Não somente a câmera é um aspecto essencial no filme como os próprios efeitos visuais muito bem encaixados, elaborados e diria até inovadores, principalmente, porque a maior parte da trama necessita do artifício do CGI para respirar. A cada momento, múltiplas referências são jogadas na tela - como personagens ou pequenos símbolos e detalhes que, por serem demasiados, podem passar despercebidos. Contudo, é um filme no qual a busca de easter eggs (literalmente, ovo de páscoa, por conta da tradição estadunidense de caçar ovos pintados nessa data comemorativa) não se relaciona somente à aventura dos personagens, mas ao telespectador empolgado com o seu próprio conhecimento sobre a cultura nerd e pop, principalmente, dos anos 80 e 90, tentando decifrar o que está aparecendo diante dele.

Encontramo-nos e nos identificamos muito mais com os personagens nesse aspecto do que nos demais. Eu confesso que, talvez por ter tido a experiência com o livro, senti falta de pequenos detalhes que preencheriam as lacunas das falas ou das cenas que soaram um tanto forçadas. Eu achei interessante pegarem literalmente falas do livro para encaixarem nas cenas, contudo, em algumas delas, acredito até que na maioria, a execução não foi muito boa porque soou um tanto fora de lugar já que houve uma alteração quase que completa em relação ao enredo da obra original, mas fica a dúvida se é pela experiência do livro ou pelo fato de que realmente não foi uma boa transposição.

Ao se falar da obra original, confesso que o filme me agradou bem mais porque, ao invés do livro-roteiro apresentado por Cline, os personagens tinham emoções vivas e presentes agraciadas pelas performances dos atores. Ainda que a estrutura seja normal e um padrão comum sem qualquer adendo, a ideia do livro é bem interessante porque conta com uma série de referências culturais que fazem parecer mais um almanaque do que realmente literatura; o filme, no entanto, dá uma elaborada, em quesito narrativo, enquanto se inspira na obra.

Não espere encontrar fidelidade, pois todas as cenas são modificadas, inclusive, o destino de alguns personagens (o que eu não sei se fico contente ou não). Além disso, os próprios desafios - alguns mais interessantes e bem mais desenvolvidos no livro - também são, embora as ideias novas sejam divertidas da mesma maneira.

Entre os pontos positivos do filme, com exceção das referências incríveis e maravilhosas que saltavam aos olhos, eu confesso que o OASIS é sem sombra de dúvida o que mais me deixou intrigada e apaixonada, pois o seu design estava completo e visualmente bem modelado. Foi realmente muito divertido observar como Spielberg e sua equipe colocaram aquele aglomerado de mundos em pouco espaço, preenchendo as lacunas que a minha imaginação não foi capaz de alcançar.

Contudo, há muitos pontos negativos. Eu, particularmente, em um gosto pessoal, não gostei da constante narração do protagonista no fundo porque era possível dispensar algumas cenas dispostas no filme para colocar outras que fizessem aquele trabalho de explicar sem precisar literalmente dizer, o próprio efeito de câmera conseguia trazer a moral da trama sem nem falar nada, por exemplo. Com relação a esse ponto, no entanto, deve-se levar em conta que é uma trama infanto-juvenil e não necessariamente os detalhes vão ficar perceptíveis aos olhos.

No que se refere aos personagens, acho que a estrutura poderia ser melhor e a aparição deles poderia ser mais do que foi. Wade é o protagonista e o seu interesse amoroso é tão intenso quanto a busca do easter egg, porém, as aparições dos outros personagens do Topo dos Cinco (os cinco primeiros a conseguirem desvendar o mistério de Halliday) poderiam ter sido mais exploradas, principalmente, o plot twist (a reviravolta narrativa) que envolve Aech, o melhor amigo, que difunde uma crítica maravilhosa dentro do livro.

Os vilões não me convenceram e nem me cativaram, permanecendo naquele âmbito genérico de bem contra mal clássico, que desemboca no ponto em que o livro ganha do filme: a explicação das situações. O maior problema do filme é que, ao não seguir o padrão da obra original, ele peca em algumas elucidações necessárias, como, por exemplo: a pobreza do personagem principal; o egoísmo dos caçadores e o desejo de trabalharem sozinhos; a capacidade de memorização e também o trabalho técnico que Wade apresenta; etc.

Obviamente, em tela, não há como encaixar todas as explicações que, sem sombra de dúvida, podem ser inseridas em um livro. Entretanto, há alguns detalhes ousados que deveriam apresentar justificativas, como a presença de dois japoneses nos Estados Unidos sem o auxílio de um homem fabulosamente rico. 

No contexto geral, há algo de incrível nesse filme, que deve ser assistido - se possível - no cinema; mas, tanto quanto na obra original, há diversas falhas durante a estrutura narrativa que saltam aos olhos e incomodam. No entanto, Jogador Nº 1 é um filme que não tem o intuito, ao que me parece, de ser bem amarrado, e sim de ser leve e divertido para crianças e adolescentes se encantarem, adultos caçarem e relembrarem a sua infância; para todos viverem em dois mundos e serem dois enquanto caçam ovos de páscoa. 


REFERÊNCIAS

CLINE, Ernest. Jogador número 1. Tradução de Carolina Caires Coelho. Rio de Janeiro: Leya, 2015.