CRÍTICA #08: À BUSCA PELA A ACEITAÇÃO

23/01/2018


À BUSCA PELA A ACEITAÇÃO

CRÍTICA #08

SINOPSE: Ferdinando é um touro com um temperamento calmo e tranquilo, que prefere sentar-se embaixo de uma árvore e relaxar ao invés de correr por aí bufando e batendo cabeça com os outros. A medida que vai crescendo, ele se torna forte e grande, mas com o mesmo pensamento. No entanto, graças a um acidente, é levado de volta para o lugar de onde fugiu. Quando El Primeiro vai até a fazenda para escolher o melhor animal para touradas em Madrid, Ferdinando é selecionado acidentalmente.

DIRETOR: Carlos Saldanha (2017)
GÊNERO: Animação, Comédia e Aventura.
DISTRIBUIDOR: Blue Sky | Fox Film | USA

Quem já teve a experiência de se sentir diferente? De não se sentir alocado? De seus pensamentos não convergirem com os demais à sua volta? Alguns mais que outros, porém acredito que todos nós já tenhamos - alguma vez - sentido que não estamos no lugar certo, no espaço no qual sejamos plenamente aceitos. O novo filme da Blue Sky Studios, Ferdinand (em português, O Touro Ferdinando) fala também sobre isso.

O filme, que estreou em 2017, muito embora tenha vindo para o Brasil somente em 2018, foi dirigido pelo famoso diretor brasileiro Carlos Saldanha (A Era do Gelo) e roteirizado por Brad Copeland (Zé Colmeia, o filme). Duas figuras que já possuem certo contato com longas-metragens animadas e voltadas para o público infantil e/ou infanto-juvenil.

Enquanto alguns criticaram o filme como longo ou infantil demais, baseando-se na adaptação feita pela Disney (1938), que inclusive foi tão bem aprovada que rendeu um Oscar ao estúdio de animação; eu acredito em outra ideia. A proposta de O Touro Ferdinando, como uma adaptação cinematográfica, tornou-se completamente uma obra inspirada no livro.

Quem já folheou as páginas do livro ou teve algum contato, sabe que a animação dirigida por Saldanha e o livro são bem diferentes entre si. Munro Leaf criou uma narrativa singela, chamada no original de The Story of Ferdinand (em português, A História de Ferdinando) e, com a simplicidade surgiu uma grande e bela história. A narrativa retrata um personagem adverso que busca a paz, em contrapartida dos demais que buscam a violência. Nesse pensamento distinto, é a paz de Ferdinando que o faz voltar para o que deseja para sua vida.

Embora o livro aborde principalmente a temática da diversidade e da paz, ainda que possamos trabalhar outros pequenos temas; acredito que o filme vai muito mais além e a fundo em muitos aspectos. A temática principal é a aceitação pela diversidade, um tema extremamente em voga e que não deixa de ser principal no filme, contudo, a crítica quanto a tourada é muito mais forte e muito mais nítida no filme.

No livro, encontramos um touro que não deseja lutar e, no final de sua narrativa, ele simplesmente é mandado para casa por não cumprir com seus objetivos. Na animação de Saldanha, a história de Ferdinando não é tão simples assim, pois quem era incapaz de lutar ou brigar, seria levado para o abatedouro.

Pode parecer um tanto violento para crianças, porém a ideia é mostrar para essas pequenas vidas em formação, a partir da docilidade de Ferdinando e dos outros touros e bezerros a sua volta, que a vida não é fácil e, para vivê-la, precisamos lutar e isso aprendemos na marra. Contudo, o que o filme ensina, após jogar uma verdade inconveniente que não necessariamente queremos saber, é que podemos lutar sem prejudicar ninguém em nosso caminho, não precisamos ser violentos, não precisamos - em um mundo capitalista e competitivo - enganar, maltratar, trair ou tentar diminuir o outro, só precisamos ser nós mesmos.

O filme nos transmite muitas lições no caminho e também trabalha cada um dos personagens que vão aparecendo, individualmente. O protagonista, ao contrário da trama que deu vida a Ferdinando, ou seja, o livro, não é o único personagem com o qual os leitores/telespectadores podem se identificar, pelo contrário, ele é somente um em uma grande parcela de personagens feridos emocionalmente.

Boa parte da carga dramática do filme se perde nas piadas e nas brincadeiras que crianças adoram ir ver no cinema, além disso, nas cenas nonsense se formos contar a realidade, no entanto, tudo isso não diminui o que há por trás, que - principalmente - os olhos adultos podem enxergar nitidamente e as crianças podem sentir, sem saber explicar o que é.

Nós não estamos mais, obviamente, em uma época em que colocar personagens em cena sem desenvolvê-los seja cabível ou plausível, cada um de nós vai estranhar esse fato. A diferença entre a animação curta da Disney e o longa elaborado pela Blue Sky é, principalmente, a gama de personagens e de subtramas que se criam.

Um dos personagens que mais me chamou a atenção foi o, a priori, inimigo de Ferdinando, o touro Valente (em inglês, Valiente). Valente é o tipo de personagem que encontramos em todos os filmes clichês americanos: exatamente, aquele personagem marrento, que só serve para brigar, maltratar e diminuir o outro - conhecido também como valentão. O nome não é uma coincidência, obviamente, e o que Saldanha faz é aproveitar muitíssimo bem esse personagem. Enquanto, em qualquer outro filme, ele se tornaria o vilão da história, o roteiro de Copeland mostra que isso não é preciso. Não existem vilões, somente pessoas (ou touros, no caso) que não aceitam o outro como ele é, sem - geralmente - entenderem o que elas próprias são e, ainda mais, incomodadas pela grande aceitação do outro.

O personagem traz uma subtrama muito bem elaborada que encanta desde o início, pois demonstra em pequenos detalhes porque ele é daquele jeito. Confesso que eu sou apaixonada por personagens que simplesmente são, como o Joker (em português, Coringa) - arqui-inimigo do Batman, porém eu também gosto quando há uma explicação para aquilo, afinal, vivemos num tempo em que precisamos responder os nossos porquês desesperadamente.

Outros personagens aparecem e também marcam bastante presença com suas histórias paralelas que, em algum momento, encontram a do protagonista. A história deles transforma-nos, ousaria dizer, mais do que o próprio Ferdinando, pois ele sabe quem ele é e quem ele quer ser, ao contrário dos demais.

Se sabemos que somos diferentes e nos aceitamos, encaixamo-nos com Ferdinando. Se estamos perdidos de quem somos ou não aceitamos nossos desejos, encontramos os demais personagens. Todos podemos nos identificar, basta somente olharmos para cada um deles separadamente.

Além de tudo, cada um deles possui uma pequena lição de superação. Se temos dificuldades, podemos contar com nossos amigos; se estamos nervosos todo o tempo, podemos tentar ganhar confiança ao lado daqueles que se importam conosco; se não nos sentimos bem, podemos procurar alguém, ou alguma coisa, que nos faça bem; se temos alguma incapacidade física, podemos superar nossas barreiras; se não conseguimos nos encontrar porque esperaram toda a vida que fôssemos algo que não somos, basta somente nos aceitarmos. Há muitos se dentro desse filme que são preenchidos, somente precisamos apreciá-los, como Ferdinando observa as flores em sua colina favorita.

And for all I know he is sitting there still, 
under his favorite cork tree, 
smell the flowers just quietly.
He is very happy.

Até onde eu sei, ele continua sentado lá,
Debaixo de seu sobreiro favorito,
Cheira as flores silenciosamente.
Ele é muito feliz.

MUNRO LEAF


REFERÊNCIAS

LEAF, Munro. The Story of Ferdinand. Illustrated by Robert Lawson. New York: Grosset & Dunlap, 2011.
A TRADUÇÃO FOI FEITA PELAS ADMINISTRADORAS DO CANETA TINTEIRO.