CRÍTICA #07: A FORASTEIRA DO TEMPO E NO ESPAÇO

11/01/2018


A FORASTEIRA DO TEMPO E NO ESPAÇO

CRÍTICA #07

SINOPSE: Claire Randall (Caitriona Balfe) é uma enfermeira em combate em 1945. Ela é misteriosamente transportada através do tempo e mandada para 1743, e sua vida passa a correr riscos que ela desconhece. Forçada a se casar com Jamie Fraser (Sam Heughan), um cortês e nobre guerreiro escocês. Um relacionamento apaixonado se acende, e deixa o coração de Claire dividido entre dois homens completamente diferentes, em duas vidas que não podem ser conciliadas.

PRODUTOR: Ronald D. Moore (2014)
GÊNERO: Fantasia, Histórico, Ficção científica e Romance.
DISTRIBUIDOR: STARZ | Sony Pictures Television | USA

(A CRÍTICA FEITA AQUI É BASEADA SOMENTE NA SÉRIE TELEVISIVA)

Embora o nosso intuito seja sempre fazer, de certa maneira, um comparativo entre a adaptação midiática e o livro de origem, infelizmente, não foi possível concretizá-lo com Outlander. Entretanto, não podemos deixar de falar a respeito dessa série tão bem desenvolvida, interessante e bem-feita, em muitos sentidos.

Outlander é uma série que trabalha viagem no tempo, o que - para alguém que é fã de Doctor Who - é um tanto preocupante. Muitas narrativas que trabalham essa questão temporal não conseguem se manter, inclusive, não conseguem seguir uma linha histórica e acabam cometendo erros de execução. Na série de Diana Gabaldon, felizmente, isso não ocorre.

Ao menos, na série televisiva, não somente a linha cronológica é muito bem trabalhada e bem executada como também a ambientação, os costumes, o misticismo, os dogmas e as superstições entram em destaque e batem de frente diretamente com os preceitos contemporâneos de Claire (Caitriona Balfe), preceitos esses que estão presentes - em parte - no ano de 1945.

Contudo, a própria personagem parece estar à frente demais até mesmo de seu tempo (1945), o que eu me perguntei - algumas vezes - se não a tornava anacrônica dentro da narrativa, por sorte, essas dúvidas são meio que sanadas quando nós conhecemos a sua vida com o seu tio (um tanto forçado, mas um tanto plausível). Claire não teve uma infância comum, por isso, possui muitas habilidades úteis que a ajudaram tanto em sua jornada através das pedras mágicas da Escócia quanto em sua participação no exército da Segunda Guerra Mundial como enfermeira.

Outro fator extremamente interessante e empolgante em Outlander é a própria história da humanidade contada a partir da perspectiva de um escritor. Gabaldon utilizou cenários sempre fomentados por jogos de poder, política pura, rebeliões e guerras, seja em 1945 ou no ano de 1743. Todos esses aspectos políticos, sociais - e que se tornam filosóficos - dão expressões para a narrativa que não somente encantam, mas também instigam a persistir na série e descobrir cada detalhe até o fim.

Claire, a protagonista e a forasteira - tanto no tempo quanto no próprio espaço escocês, o que dá total sentido ao título da obra, visto que outlander significa "forasteiro" em inglês - é extremamente determinada, forte e muito capaz. Ela não é a típica moça que clama por ajuda, pelo contrário; porém, o que a torna ainda mais interessante são seus defeitos que movimentam o enredo. A personagem é extremamente teimosa e, estando além de seu tempo e vislumbrando injustiças sociais ou superstições que, para nós, são bobas, ela geralmente encontra problemas pelo caminho.

São esses problemas que o seu par romântico e revolucionário Jamie Fraser (Sam Heughan) precisa resolver, acostumado com todas aquelas ideias que, até mesmo para ele, são baboseiras. Outro personagem um tanto anacrônico em algumas situações, mas, ao mesmo tempo, parte e revolucionário de seu tempo. Jamie possui muitas perspectivas machistas e seculares que vão se rompendo pouco a pouco, no entanto, ainda assim, consegue entender muitas das ideias de Claire com bem mais facilidade - se é por amor ou por compreensão plena, somente a série de livros deve detalhar. Ele já era um leitor ávido, conhecedor de línguas e vindo de uma família, de certa maneira, privilegiada; logo, em certa medida, torna-se plausível o que é proposto para ele dentro da trama: um revolucionário que não se cansa de lutar pelo que acredita ser certo. O que é estranho - e não necessariamente ruim - é que misturam, dentro desse personagem, inocência sexual e sagacidade intelectual de tal forma que dão a ele um formato muito ambíguo.

Ambos os personagens são muito bem construídos e desenvolvidos dentro da história, como todos os outros que vão surgindo, principalmente o vilão Jack Randall (Tobias Menzies). As atuações dos atores durante as temporadas, principalmente, nas cenas finais da primeira são assustadoramente boas. A qualidade na execução faz com que você sinta ódio, você sinta nojo e você sinta tantas sensações que se perde dentro delas.

Entretanto, algumas dessas situações no decorrer da série de Diana Gabaldon me incomodam. Ela utiliza um recurso narrativo que muitos autores acrescentam em suas histórias e particularmente não me agradam se usados em demasia: o estupro. Para desenvolver alguns receios, fobias e até o próprio personagem, alguns utilizam estupro e Diana faz isso também, o que me incomoda, com frequência, mas não me faz também parar de assistir ou querer desistir de uma trama.

Inclusive, a série executa muito bem as cenas de tortura, violência e sangue. A STARZ, que serializa Outlander, costuma fazer um trabalho sublime, principalmente em histórias de época, o que não foi diferente dessa vez. Entretanto, outro aspecto que me deixa insatisfeita - e pelo que me parece provém dos livros - é a quantidade excessiva de cenas de sexo.

Eu costumo pensar que qualquer cena precisa contribuir para o desenvolvimento da narrativa, nem que seja apenas sentar e comer algo e contemplar a natureza (como ocorre nos filmes do Miyazaki, conhecido também como "movimento gratuito"). Nesse espaço, embora nada ocorra, ocorre tudo - porque o silêncio fala.

No entanto, o que muitas séries televisivas têm feito com frequência para ganhar público é extrapolar nas cenas sexuais. Séries como Game of Thrones, Sense8 e até mesmo Outlander utilizam esse recurso a todo momento e passam uma sensação de que estão preenchendo espaços para prolongar a história (coisa que não é necessária, afinal, existem oito livros para serem adaptados).

Outlander é uma série densa, cheia de acontecimentos marcantes e reviravoltas impressionantemente bem executadas. Ela também é uma história brilhante que possui personagens fortes e um verdadeiro empoderamento feminino quando falamos da personagem Claire.

O romance histórico - ainda que tenha ênfase na parte romântica - entra a fundo nos mapas inexplorados do passado (1743) e do futuro (1945), invade a nossa mente e questiona os pensamentos de ambas as épocas e como, com o passar do tempo, evoluímos moral e socialmente. Outlander é uma série que vale a pena ser apreciada, ainda que tenha os seus problemas, como qualquer história.

Não há dúvidas de que o tempo gasto assistindo às temporadas de Outlander vale a pena, inclusive, até mesmo a sua abertura - uma das mais bem-feitas, em minha humilde opinião - vale. Somos forasteiros naquele mundo criado por Gabaldon, agora, o que nos resta é explorá-lo ao lado de Claire.

  

REFERÊNCIAS

Não foram utilizadas referências bibliográficas para fazer essa crítica.