CRÍTICA #06: A MORAL DE UM ASSASSINO

04/12/2017


A MORAL DE UM ASSASSINO

CRÍTICA #06

SINOPSE: O detetive Hercule Poirot (Kenneth Branagh) embarca de última hora no trem Expresso do Oriente, graças à amizade que possui com Bouc (Tom Bateman), que coordena a viagem. Já a bordo, ele conhece os demais passageiros e resiste à insistente aproximação de Edward Ratchett (Johnny Depp), que deseja contratá-lo para ser seu segurança particular. Na noite seguinte, Ratchett é morto em seu vagão. Com a viagem momentaneamente interrompida devido a uma nevasca que fez com que o trem descarrilhasse, Bouc convence Poirot para que use suas habilidades dedutivas de forma a desvendar o crime cometido. 

DIRETOR: Kenneth Branagh (2017)
GÊNERO: Policial e Suspense.
DISTRIBUIDOR: FOX | Estados Unidos

O Assassinato no Expresso do Oriente, considerada a obra mais famosa de Agatha Christie, ganhou mais uma adaptação para o cinema. Agora, não somente dirigida, mas também estrelada por Kenneth Branagh (Thor), como Hercule Poirot.

Como é uma narrativa bem famosa, não há necessidade de entrar em detalhes a respeito do enredo elaborado dentro do livro. Basicamente, é uma história que trabalha um assassinato no trem do Expresso do Oriente, lugar no qual - por uma coincidência do acaso, Hercule Poirot está. A mesma lógica do tempo errado ou momento certo, para o detetive, é o lugar exato (ou não), mas, para o assassino, é exatamente o oposto.

Ao contrário da obra original, a história não enfatiza o desvendar do crime, mas a questão moral da sociedade sobre todo o processo judicial. O que é certo ou errado? O sistema judicial está julgando todos aqueles assassinos que merecem? O que ocorre quando um assassino fica livre? Há justiça na vingança? Essas questões alimentam o enredo apresentado pelo filme, algo que você consegue deduzir no decorrer do livro de Christie, mas não é reforçado o tempo todo ou tão bem explorado, já que possui uma história mais simples e que enfatiza muito mais o desvendar do crime.

A trama começa a investigar essas ideias desde o início. Confesso que a conectividade do fio narrativo me pareceu bem ambígua, enquanto as questões morais e a filosofia do filme foram mencionadas do início ao fim e muito bem estruturadas dentro da narrativa, o próprio fio investigativo pareceu se perder e muitos detalhes - que existem no livro e foram modificados ou omitidos na história - ficaram literalmente jogados no ar.

Nós vivemos em um tempo que as questões morais acabam nos influenciando muito mais, buscamos sempre tentar entender o propósito e a complexidade humana, tanto é que - na contemporaneidade - os vilões sempre precisam ter um passado traumático ou um motivo para agirem como agiram. De fato, podemos considerar isso um avanço no fio narrativo, porém, essa busca incessante pelo entendimento do porquê da razão humana pode acabar - como ocorreu nesse filme - ofuscando o que seria mais interessante: a própria investigação.

Essa, eu poderia dizer que ficou um tanto jogada. A priori, o que me incomodou foi o processo médico e legista que não ocorre, já que o personagem do médico e do general se fundiram em um só. Perdendo um dos investigadores - e um dos que faz descobertas importantes -, o processo de Poirot pareceu muito dedutivo e pouco analítico, característica que não combina com o personagem. Logo que começa o filme, você descobre que os personagens se tornaram um - o que torna tudo um tanto confuso se você conhece a história.

Outro aspecto que me incomodou foi o fato de Poirot ver a mulher do robe - no filme é chamado de quimono - vermelho com um desenho de dragão. Se ele foi capaz de fazer investigações como um médico legista (algo que no livro, ele depende em certa medida do médico grego), mesmo a observando de costas, Poirot seria capaz automaticamente de descobrir quem era - coisa que não acontece.

Um dos grandes problemas do filme, na minha concepção, foi trocar o lado policial-investigativo e focar em uma necessidade de movimento e drama constantes. O Assassinato no Expresso do Oriente não precisa de movimentação, a história foi feita - literalmente - para ser parada, pois toda a moral e todos os personagens envolvidos estão estagnados no lugar. O foco na movimentação, nas corridas atléticas - que não condizem com o personagem - em perseguições e também tiros, fizeram com que a película tivesse uma ideia mais dramática do que de fato ela deveria ser em honra ao livro.

Obviamente, esse aspecto dentro da trama faz até certo sentido, pois os cenários condizem com o que Poirot está passando no momento. Além disso, não se pode negar que o jogo de câmeras também foi muito bem idealizado, principalmente, na cena do crime - bem em cima - para dar impessoalidade. Não há um ponto de vista pessoal em Poirot, ele olha para o mundo e vê simplesmente o que está fora do lugar. Como ele mesmo diz, é péssimo para a vida cotidiana, mas muito bom para solucionar crimes.

Outro aspecto que me incomodou, porém de certo cativa o grande público, foi o ar romântico e a imposição de jogadas para esse aspecto em alguns momentos. Não havia qualquer necessidade para isso, contudo, pela conveniência de trazer drama para a cena e numa tentativa de conectar os personagens ao grande público que jamais leu Agatha Christie, mais uma vez, fizeram um movimento arriscado e até decepcionante.

Entretanto, como nem tudo são desgraças, eu preciso apontar as atuações como excelentes e muito bem executadas. Diversos atores de peso se encontravam no elenco e muitos deles entregaram uma atuação primorosa, Josh Gad (McQueen), por exemplo, fugindo do seu cotidiano, fez um excelente trabalho dramático ao lado de Michelle Pfeiffer (Mrs. Hubbard). Até mesmo Johnny Deep (Ratchett), depois de tanto tempo, conseguiu entregar um personagem diferente do blasé Jack Sparrow, mas talvez isso se deva a seu pouco tempo em cena.

A personalidade exprimida por Kenneth Branagh para Hercule Poirot foi muito diferente do que eu esperava, todavia, não me incomodou de fato porque manteve o essencial do personagem. Na verdade, o excêntrico metodismo, a vaidade arrogante e até o nacionalismo do personagem foram bem fiéis, logo, o resto foram ganhos acrescentados pelo ator que, na minha concepção, foram um dos poucos acertos do filme quanto a adaptação do livro.

Entre pontos positivos e negativos, senti que o longa-metragem poderia ser muito mais se fosse fiel a obra, se buscasse o lado investigativo acima da tentativa de conquistar um público agitado e ansioso por ação. Talvez, para aqueles que jamais leram o livro, o filme tenha ficado bom, muito embora eu ache difícil que tenha passado disso. Mas, claro, com um final à moda de Agatha Christie, não tem como ficar menos que isso.  


REFERÊNCIAS

CHRISTIE, Agatha. Assassinato no Expresso do Oriente. Tradução de Archibaldo Figueira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2014.