DICA #04: CONVERSANDO NO MUNDO - COMO FALAR SOBRE DIÁLOGO

21/10/2017


CONVERSANDO NO MUNDO: COMO FALAR SOBRE DIÁLOGO

DICA #04

PERSONAGENS: MR. POUPLE E AUTORA DO TEXTO
CENÁRIO: UM ESCRITÓRIO MOBILHADO COM UM DIVÃ, LUGAR ONDE A AUTORA DO TEXTO ESTÁ DEITADA, E UMA POLTRONA. NESSA POLTRONA, MR. POUPLE ESTÁ COM UM BLOCO DE ANOTAÇÕES - REPLETO DE RABISCOS SOBRE TENTÁCULOS, ONDAS E COISAS MAIS. NADA FAZ SENTIDO NAQUELE BLOCO, MUITO MENOS, NAQUELAS PAREDES COR DE CARMIM. 

MR. POUPLE: Mas como você se sente sobre isso?

AUTORA: Eu não sei, na verdade, vim descobrir. Eu não estaria aqui, deitada em um divã, se eu não estivesse curiosa a respeito de como criar um texto sobre diálogo. 

MR. POUPLE: Mas isso que você está fazendo agora, o que seria senão um diálogo? 

AUTORA: Oh, eu não pensei nisso! Mas e se isso não for o suficiente? 

MR. POUPLE: Eis a questão, minha cara. 

A questão continua em aberto, você - leitor - e eu - ao lado do Mr. Pouple - tentaremos desvendá-la, mesmo sabendo que não seremos capazes de esgotar o assunto que é extremamente amplo em si mesmo. Para falar sobre algo, antes de tudo, você deve buscar desvendá-lo. Logo, este texto será tanto um auxílio para escritores desesperados quanto uma solução para leitores tentando compreender como falar a respeito das múltiplas formas em que o diálogo aparece.

A formatação primária desse texto, em que há a conversa entre mim e Mr. Pouple, proveio do diálogo platônico. Os textos de Platão, como uma tentativa de se aproximarem da realidade oral da época, são todos formados por diálogos - em que o assunto jamais se finda, mas leva o interlocutor ávido e os personagens dentro da trama a pensarem, questionarem e refletirem a todo o instante sobre o que está sendo trabalhado: um bom diálogo sempre tem um propósito e ele, aos poucos, torna-se a alma do texto.

Uma boa descrição e uma boa narração sempre são importantes, mas o texto pode perder completamente o sentido de acordo com o diálogo que é apresentado dentro dele, você já notou isso? Não adianta você ter um texto tão poético quanto Florbela Espanca, mas que, ao mesmo tempo, questiona sobre fantasmas e responde com hidras! Se você cria um diálogo, você deve manter coerência.

Logo, a primeira coisa a ser buscada é essa tal de coerência. A coerência, dentro do diálogo, é a pergunta ser respondida, a reflexão gerada pela questão anteriormente colocada estar de acordo com o que será levado a diante, ou seja, o leitor ser capaz de enxergar, sentir, refletir e compreender toda a situação em curso. Isso deve ficar bem claro, tanto na mente do escritor ávido por respostas, quanto para o leitor que deve comentar sobre esse tema.

Mas como esse diálogo irá aparecer dentro da narrativa? Essa é uma pergunta muito boa e, ao mesmo tempo, com uma resposta muito ampla. O diálogo, isso já é uma opinião pessoal, deve aparecer de acordo com o que você está propondo dentro da narrativa. Sua história é mais poética? Voltada para a reflexão? Voltada para a ação e a aventura? Para mim, a resposta depende muito do que você está explorando dentro da sua história e trama.

No entanto, é possível responder algumas possibilidades pré-prontas de como o diálogo pode aparecer na estrutura gramatical. Ele pode - comumente no Brasil - aparecer com o famoso travessão, que, por sinal, possui regras de uso (mas isso é muito vasto e denso para falar em um texto que busca apreender informações básicas sobre diálogo); nos Estados Unidos, o diálogo aparece entre aspas (o que também tem as suas regras, mas o word, se você utilizar, pode te ajudar muito); ou, como faz o mestre Saramago e alguns autores portugueses que o seguem fielmente: sem absolutamente nenhuma marcação. Sim, esse último é bem difícil de ler, mas, com o tempo, você se acostuma (embora não seja uma estrutura que eu recomende se você busca um público amplo). Há textos como o diálogo formado por Platão, a estrutura utilizada são propriamente diálogos e seguem um esquema semelhante ao que é visto e abordado no mundo do cinema, ou seja, em roteiros.

Essas estruturas gramaticais marcadas, geralmente, pertencem ao âmbito do discurso direto, ou seja, aquele discurso literalmente marcado dentro do texto, em que você claramente vê, a partir da estrutura gramatical, o diálogo acontecendo, como o feito acima. No entanto, o discurso direto não é o único recurso que o diálogo pode oferecer ao leitor, há também o discurso indireto.

O discurso indireto não aparece em forma de diálogo explícito parte por parte, mas aparece como um diálogo subentendido no texto, ou seja, um diálogo que ocorreu e que o autor, utilizando verbos de elocução, conta ao seu leitor como foi. Em um diálogo de discurso indireto, o texto acima ficaria:

A autora estava com dúvidas sobre o que fazer e questionou a Mr. Pouple, que lhe perguntou como se sentia. A resposta foi direta quando ela disse que não sabia, por isso estava ali para descobrir. No entanto, embora a autora pensasse que não obteria qualquer resposta, Mr Pouple completou o seu raciocínio, dizendo que a resposta já estava ali e ela que não enxergava. Prontamente, a autora exclamou que não havia pensado naquilo, ainda que não achasse suficiente o que havia descoberto.

No entanto, a questão é: quando utilizar indireto? Quando utilizar discurso direto? Isso, meu caro escritor, fica ao seu critério. No caso do leitor, você deverá julgar se é pertinente ou não, porém, lembre-se: cada caso é um caso. Não há como saber sem experienciar aquele momento e perceber se o trabalho foi bem executado ou não pelo autor da história.

A autora não esqueceu, obviamente, que comentou sobre os verbos de elocução. Embora pareça, a autora não é relapsa e irá explicar para vocês o que eles são, de uma maneira bem breve. Verbos de elocução são aqueles que ou vão introduzir uma fala ou a anunciam, ou seja, são os verbos capazes de exprimir o ato de se expressar, relatando a respeito da forma com que os personagens se comunicam (eles não são verbos obrigatórios na hora do diálogo, mas podem exprimir muito melhor o momento para o seu leitor).

Alguns exemplos são: protestar; refletir; declarar; concluir; desabafar; suspirar; justificar; sussurrar; concordar; queixar-se; desculpar-se; replicar; negar; ordenar; comentar; gritar; falar; dizer; responder; questionar; perguntar; indagar; afirmar; pedir; etc.

Depois de conhecer um pouco mais sobre diálogo, você, caro leitor, tenho certeza que sabe como se encontrar dentro do diálogo e julgá-lo. Questione-se. Faça perguntas como: aquele diálogo faz sentido? Eu compreendi o que estava sendo passado? O autor utilizou o diálogo para encaminhar a história bem? Ele não fez isso?

Se as respostas forem sim, comente como o autor foi claro em seu diálogo, como o autor o desenvolveu bem, como as falas impressionaram você e dê a explicação do porquê. Essa impressão foi causada pela espontaneidade do diálogo? A naturalidade com que os personagens travaram sua rixa? Como o embate no diálogo fez com que a história tomasse rumo? Tenho certeza que, caminhando passo a passo nesse processo, você é capaz de refletir junto com o autor e responder os porquês.

Se as respostas forem não, você tem, nessa postagem, um guia prático de como entender para o que um diálogo serve, por que ele é importante e por que ele deve fazer sentido dentro do texto. Ele colocou muitas informações desnecessárias no diálogo que não levaram a lugar nenhum? Nem mesmo a uma reflexão? Diga os motivos que o levaram a pensar isso! O diálogo não pareceu espontâneo? Diga o motivo: a personalidade do personagem não combina com aquelas palavras? As respostas foram diferentes das perguntas? Você com certeza é capaz de desenvolver o seu ponto, ajude o escritor e desenvolva você mesmo como o grande crítico e leitor que é.