ANÁLISE #15: A IMPORTÂNCIA DA JORNADA

15/05/2018


A IMPORTÂNCIA DA JORNADA

ANÁLISE #15

ANÁLISE: O Mágico de Oz
AUTOR: Lyman Frank Baum

SINOPSE: Um clássico para crianças, jovens e adultos. Um ciclone atinge a casa onde Dorothy vive com os tios e ela e seu cachorro Totó são levados pela ventania e param na Terra de Oz. Por lá, Dorothy faz novos amigos - o Espantalho, o Lenhador de Lata e o Leão Covarde -, encara perigos, vive histórias fantásticas e precisa enfrentar seus próprios medos. Depois de tantas aventuras, a menina descobre que seus Sapatos de Prata têm poderes mágicos e podem levá-la para qualquer parte. Mas não existe melhor lugar no mundo do que a própria casa.

Essa edição Bolso de Luxo traz tradução de Sérgio Flaksman e cerca de 50 ilustrações originais de W.W. Denslow - que desde o princípio mereceram elogios do público e da crítica por serem inovadoras, assim como o humor, a fantasia, a verdade e a integridade da natureza humana nos personagens de Baum. 

Por lá, Dorothy faz novos amigos - o Espantalho, o Lenhador de Lata e o Leão Covarde -, encara perigos, vive histórias fantásticas e precisa enfrentar seus próprios medos. Depois de tantas aventuras, a menina descobre que seus Sapatos de Prata têm poderes mágicos e podem levá-la para qualquer parte. Mas não existe melhor lugar no mundo do que a própria casa.

  

O que nos encanta em histórias? São os personagens, as suas histórias ou as suas crenças? São os seus objetivos ou a sua jornada? O que, de fato, faz com que uma história permaneça eterna, fique presa em nossos corações e nos modifique de alguma maneira?

Há muitos críticos, acadêmicos ou não, e escritores, profissionais ou não, buscando essa resposta, mas sem ter sucesso de encontrá-la. Ao menos, é o que acreditamos. Será que é isso? É mesmo tão difícil acertar nesse mundo repleto de possibilidades?

Não podemos definir uma fórmula do sucesso, pois há tantas fórmulas diferentes e marcantes no mundo que não existe um padrão definido, porém, o que todas elas possuem em comum é uma jornada relevante.

Ao dizer "jornada relevante", eu não falo diretamente sobre a aventura em si, mas sobre alguma alteração importante nos personagens aos quais nos apegamos (ou odiamos) que faz com que tenhamos empatia. Logo, quando temos uma aventura assim, todo o resto está suscetível ao acerto, seja para o lado positivo ou negativo.

Pode ser um mísero conto de fadas arcaico ou moderno, como O Mágico de Oz, pode ser um roteiro de cinema ou uma peça de teatro, como Hamlet. Pode ser qualquer narrativa que nos apresente uma - literal - jornada relevante, no sentido exato da palavra.


"Como é que eu poderia deixar de ser um farsante? - pensou ele. - Essas pessoas me pedem coisas que todo mundo sabe que são impossíveis."


Em O Mágico de Oz, podemos ver nitidamente o que faz essa narrativa ser tão importante e estar eternizada na história dos Estados Unidos, consequentemente, no mundo inteiro. Nós acompanhamos uma menina comum, que vivia no Kansas, e tem a sua casa arrebatada por um ciclone, o que a leva diretamente para o Mundo de Oz.

Após chegar, Dorothy se vê em um lugar colorido, muito diferente do ambiente em que morava - sem graça, cores ou alegria. Além disso, ela - sem querer - assassina uma bruxa e, por conta disso, consegue sapatos mágicos.

Antes de continuar, acho interessante ressaltar que - como todos os outros personagens - a menina já tinha tudo o que precisava para voltar ao Kansas, o seu pedido ao mágico Oz, embora não soubesse disso.

Esse é um ponto extremamente importante em toda a obra de Baum, visto que tanto a menina quanto o Espantalho, o Lenhador e o Leão possuem o que precisam e, literalmente, o que buscam. O Espantalho deseja um cérebro; o Lenhador, um coração e, por último e não menos importante, o Leão queria coragem para enfrentar os perigos e desafios.

Entretanto, Baum deixa claro que todos já são do jeito que querem ser. Durante a aventura, percebemos que o Espantalho - na maioria das vezes - é aquele que pensa na solução do problema; o Lenhador, sempre preocupado em ser empático por não possuir um coração, é o personagem que mais se vê apegado aos outros e os ajuda. Por sua vez, o Leão, entre todos, sendo ele meu favorito, é a figura que não reconhece que a coragem vem do medo e, por causa disso, é aquele que sempre se dispõe a enfrentar os perigos e proteger Dorothy.

Todos os três personagens são o que mais buscam ser, sem perceber, no entanto, que já o são, pois nós não somos capazes de reconhecer os nossos atributos positivos, ainda mais se os desejamos intensamente. O que Baum mostra em sua obra é que podemos ser o que quisermos, basta que nos preocupemos em sê-lo. E, dessa forma, revela-nos durante a jornada que cada um de nós, preocupados, podemos ter o que buscamos, quiçá precisamos, sem nem sentir.

A fala de Oz a respeito da farsa e do desejo pelo impossível possui uma força agradável e que serve mais para nós adultos do que para as crianças para as quais ele jurou estar escrevendo, isso porque nós pedimos aos outros coisas impossíveis o tempo todo, coisas que só nós podemos conseguir. Ninguém pode nos dar coragem, sabedoria ou empatia, pois somos nós que devemos nos aperfeiçoar e, por fim, fazer o melhor que pudermos a cada dia.

Mas e Dorothy? Dorothy tinha a si mesma e ela era capaz de encontrar a resposta desde o início, visto que possuía os sapatinhos que a levariam de volta para casa, como ressalta Glinda. Logo, ela também não precisava de ninguém mais.

Então, para que serviu toda a jornada e que relevância ela tem se cada um deles já possuía o que buscava?

Tal como a ambiguidade dentro dos personagens, de querer algo que já possuem, a jornada também assim é: ela fala sobre o que mais é importante para nós, o aprendizado.

Uma jornada relevante, dessa forma, não é o que simplesmente é magnânimo, incrível ou visualmente interessante aos nossos olhos, mas o que faz com que aprendamos alguma coisa e o que alcança a nossa mente ou nosso coração, pois nossa vida é constante descoberta: sobre os outros e nós mesmos.

Essa é a importância da jornada - e o que mais eterniza histórias no mundo todo.


REFERÊNCIA

BAUM, L. Frank. O Mágico de Oz. Apresentação Martin Gardner; prefácio Gustavo H. B. Franco; tradução de Sérgio Flaksman; notas de Juliana Romeiro; ilustrações W.W. Denslow. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.