ANÁLISE #14: A BESTA QUE HABITA A PELE DA FERA

26/04/2018


A BESTA QUE HABITA A PELE DA FERA

ANÁLISE #14

ANÁLISE: A Bela e a Fera (mais de uma versão)
AUTORAS: Jeanne-Marie Beaumont e Gabrielle-Suzanne Barbot 

SINOPSE: Narra a história da jovem Bela que vai viver em um castelo com uma fera, para salvar a vida de seu pai. A Fera se apaixona por Bela, que terá que escolher entre a virtude e a beleza para alcançar sua verdadeira felicidade.

Os contos de fadas foram e ainda são extremamente populares ao redor do mundo, sendo reinventados de tempos em tempos por adoradores do gênero. Além disso, são narrativas que não somente nos prendem, mas também nos representam, fazendo parte sempre de um contexto popular.

Bela e a Fera - tão conhecida pela geração atual por conta da animação da Disney, em 1991 e, recentemente, o live-action, a história animada encenada por pessoas, em 2017 - é um desses contos que se manteve na contemporaneidade e foi explorado e reinventado desde o passado, partindo até de interpretações míticas, de acordo com alguns estudiosos que tentam descobrir a raiz do conto.

Entre a vertente mítica e literária, também se tem a histórica. Pode parecer comum aos olhos de alguns e estranho aos olhos de outros, contudo, é sempre bom lembrar que há aqueles que acreditam que todo conto popular teve origem de uma formação histórica, como eu; e, por sua vez, outros que acreditam que coexiste com a psique humana e não, de fato, com relações históricas. Obviamente, ninguém de fato acredita que os fatos ocorreram exatamente como são narrados, no primeiro caso, porém, tem-se a crença que as narrativas populares são baseadas, em certa medida, em histórias de sua época, como avisos, alertas ou simplesmente contos que, de ponto em ponto, aumentaram e fantasiaram-se de misticismo.

O caso de Bela e a Fera não seria diferente dos demais contos conhecidos, porém, ao contrário dos outros, existe uma fonte histórica muito provável, comentada assim por especialistas, que seria a luz dessa narrativa. A história seria de Pedro González, um homem que nasceu no arquipélago das Canárias, em 1537.

Esse espanhol tinha hipertricose, popularmente conhecida como síndrome do lobisomem. Ela é uma doença autossômica, em outras palavras, hereditária - que passa de pais para filhos -, considerada uma mutação genética que, como característica principal, causa um crescimento excessivo de pelos em todas as regiões, com exceção das mucosas, palmas das mãos e também a sola dos pés. Deve-se ressaltar o fato de que é extremamente rara, um caso a cada dez milhões de pessoas.

Um dos consideráveis - e possíveis - sintomas de um indivíduo com hipertricose é o desenvolvimento de problemas psicológicos e sociais, visto que são pessoas excluídas socialmente por serem diferentes das demais, além disso, eram - no passado e ainda hoje, em alguns lugares com pouco conhecimento científico - chamados de bestas e assim considerados. Entretanto, em contrapartida, muitos desses indivíduos são conhecidos já que sua aparência os destaca dos demais - levados sempre para circos, shows de aberrações ou até para a televisão.

De acordo com Lacerda, tradutor e editor da linha Zahar Clássicos, González nasceu com o corpo coberto por pelos de tom vermelho-escuro, principalmente no rosto, o qual era, a partir de registros, considerado harmonioso. Mesmo vindo de uma família de potentados de Tenerife, sua vida foi tão difícil quanto a de qualquer pessoa com hipertricose. Não recebeu qualquer educação e ainda foi entregue, pelo próprio pai, ao imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Carlos V, também conhecido como Carlos I da Espanha.

Mas por quê? Naquela época, nas cortes absolutistas, tais criaturas eram admiradas como objetos colecionáveis. Ter alguém com hipertricose em seus domínios, ou melhor, para eles, ser proprietário de uma besta, dava-lhes certo status e prestígio.

Quando Pedro González - ainda criança - estava sendo transportado para a Holanda, onde o imperador reunia a sua corte, o navio foi atacado e dominado por ninguém menos do que os corsários franceses. Esses, por sua vez, mandaram-no como animal de estimação para o rei da França, Henrique II.

Um fato interessante, também comentado por Lacerda, é que Pedro foi chamado de Barbet, em 1557, em sua chegada a Paris. Barbet, na verdade, é um cão muito popular francês, também conhecido como cão d'água francês por ser muito utilizado na caça de pássaros aquáticos, o pelo desse cão é enrolado e cobre toda a face do animal, inclusive, o seu focinho.

Mas como Pedro González se tornaria o predecessor da Fera tão culta que nós conhecemos? Pois bem, Henrique II resolveu fazer um experimento, submetendo o menino a uma educação normal para a nobreza e o vestindo como se fosse parte da corte. Renomeou Pedro, dando-lhe um nome latino - considerado, de certa forma, um batismo - de Petrus Gonsalvus.

Como era de esperar, os avanços foram tremendos, visto que Pedro não somente aprendeu a ler e escrever, mas também aprendeu a falar outras línguas além do espanhol, como o francês, o italiano e o latim. Contudo, para os cientistas e nobres franceses, foi uma surpresa.

Viveu por muitos anos dessa forma, encantando a todos por sua inteligência e a sua capacidade de sê-lo. Ele encantava tanto os embaixadores estrangeiros que Henrique II passou a recompensá-lo por sua diplomacia. Entretanto, a sua história muda completamente com a morte do rei.

Em 1559, a rainha Catarina de Médici, viúva do rei, tornou-se a propriedade de Petrus. Ela era conhecida, de acordo com Lacerda, por sua excentricidade e entusiasmo e, de tal maneira que considerava tudo ou esotérico ou exótico, até mesmo as profecias de Nostradamus, a quem literalmente consultava.

Ainda mais ousada que o marido - para os padrões da época -, Catarina resolveu fazer uma experiência ainda maior: ela casou a fera com uma bela mulher, visto que tinham curiosidade para saber como nasceriam os filhos desse cruzamento e se isso seria possível.

A noiva, ou melhor, a predecessora de nossa adorável Bela, se chamava Catarina, era a filha de um serviçal da corte e considerada a mais bela dama do séquito real. Familiar, certo? Ela não soube com quem iria se casar até o último instante, e, diz Lacerda, que a surpresa foi tão grande que a moça até desmaiou. Obviamente, com o tempo, parece que o susto e o preconceito deram espaço para uma relação amorosa e um casamento bem-sucedido, tanto é que tiveram sete filhos. Contudo, o que ocorre depois, na vida desse personagem histórico, não é tão feliz quanto os finais dos contos de A Bela e a Fera e a animação da Disney fomentam em nosso imaginário. Nada feliz, diga-se de passagem.


REFERÊNCIAS

BEAUMONT, Madame de; VILLENEUVE, Madame de. A Bela e a Fera. Tradução de André Telles; apresentação de Rodrigo Lacerda; ilustração de Walter Crane e outros. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.
LEROI, Armand Marie. Mutantes: de la variedad genetica y el cuerpo humano. Barcelona: Anagrama Editorial, 2007.
<https://minutosaudavel.com.br/o-que-e-hipertricose-tipos-sintomas-tratamento-causas-e-mais/>; consultado em 03/12/2017, às 13:18.
<https://www.guiaderacas.com.br/barbet.shtml>; consultado em 03/12/2017, às 13:26.