ANÁLISE #13: NAÇÃO ZUMBI

20/03/2018


NAÇÃO ZUMBI

ANÁLISE #13

ANÁLISE: Nação Zumbi
AUTOR: Marcelino Freire

SINOPSE: No conto, acompanhamos a voz de um homem negro que se manifesta contra a proibição que sofreu de vender seu próprio rim. 

A leitura de um conto de Marcelino Freire parece ser, antes de tudo, a leitura de uma voz que ressoa pungente - na mente, nas páginas, nos becos e ruelas e favelas e quaisquer outros lugares cuja marca é o silenciamento, promovido pelas camadas dominantes, mas que encontra o seu som novamente nas obras do autor.

É justamente esse "dar voz", esse "ouvir o silêncio forçado" que torna "Nação Zumbi", o conto em análise, tão marcante em sua oralidade. Não é à toa que, se o lermos em voz alta, ele é capaz de se assemelhar a um canto.

'Nação', segundo o dicionário Priberam online, além da significação corrente de agrupamento político independente, tem como uma de suas acepções "casta, raça". Já 'zumbi', além da definição usual como "indivíduo morto cujo cadáver se crê ter sido reanimado" ou "ente fantástico [...] que vagueia a altas horas da noite", recebe ainda mais duas conceituações: uma, dada pelo próprio texto, é a de "fantasma que vaga pela noite morta"; a outra, de cunho histórico, é uma referência ao líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, escravo fugido cuja etnia negra é compartilhada com o narrador-personagem do conto. Entretanto, não é só a etnia que eles têm em comum, pois muitos dos aspectos da escravidão, declarada, por muitos, como superada, mostram-se em paralelo com a realidade atual.

No conto, temos a voz de um narrador negro que deseja vender seu rim ao mercado negro (a ironia já surge desde a nomeação do meio de comércio) por dez mil, mas ele está sendo impedido pelo governo porque seu intento configura ilegalidade. O texto, então, é um diálogo em que o leitor realiza o papel do interlocutor - mais: de ouvinte, uma vez que a marca de oralidade é tão forte - daquele que se sente injustiçado por um governo que só lhe procura para lhe atrapalhar:

"Que merda!/Por que não cuidam eles deles, ora essa? O rim é meu ou não é?"

No entanto, o que no começo parece uma reclamação individual, que dizia respeito ao caso de uma pessoa específica, acaba por se revelar um modo de denúncia de problemas sociais muito mais amplos, complexos e de maior abrangência:

"Fácil é denunciar, cagar regra e cagüetar. O que é que tem? O rim não é meu, bando de filho da puta? Cuidar da minha saúde ninguém cuida. Se não fosse eu mesmo me alimentar. [...] Por que vocês não se preocupam com os meninos aí, soltos na rua? Tanta criança morta e inteirinha, desperdiçada em tudo que é esquina. Tanta córnea e tanta espinha. Por que não se aproveita nada no Brasil, ora bosta?"

A questão da fome, do abandono governamental, diz respeito a todo um grupo de pessoas denominado por Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, como 'o refugo humano': são os desperdiçados, aqueles que constituem os excluídos da sociedade capitalista. Através da voz do narrador, entrevemos todo um mundo tão insistentemente silenciado pela mídia, pelos olhares que dele são desviados, pelos ouvidos que a ele são negados. Através do conto de Marcelino Freire, somos instados a ouvi-lo e reconhecê-lo como existente.

Outro ponto observado, retomando o que foi dito sobre a escravidão e como ela ainda reflete em aspectos da atualidade, é o modo como, de uma forma distinta, o negro continua a vender seu corpo. Logo após a abolição da escravidão, apesar de os escravos estarem teoricamente libertos, muitos foram obrigados a vender sua força de trabalho porque, de outra forma, não encontrariam sustento em uma sociedade que não lhes era receptiva. Séculos após, não obstante todos os discursos contra a discriminação, o preconceito; e a favorecimento dos direitos e a igualdade dos homens, vemos em "Nação Zumbi" um exemplo de como os negros, os pobres em geral, ainda são, de alguma forma, obrigados a vender seu corpo.

Não só a venda do corpo, mas a ideia de movimento também é retomada: na época da escravidão, havia a vinda dos negros da África para o Brasil; no conto, há a ida do negro de volta para a África, onde venderá seu órgão - e, se antes os escravos chegavam por mar, agora o narrador-personagem vai pelo céu:

"Meu sonho não foi sempre o de voar, feito um Orixá? Pôr meus pés em cabine de avião. Diz aí, meu irmão, minha asa quem mandou cortar? Quando irei sorrir quando a nuvem me pegar? Ver o chão lá de cima?"

A oralidade, a ironia e o humor negro são três características que perpassam o conto, mas não só: há certo ritmo e constância de rimas que faz com que não apenas "Nação Zumbi", mas Contos Negreiros como um todo, dialogue ainda mais firmemente com "Navio Negreiro", de Castro Alves. O nome, a divisão em cantos, as rimas, fazem com que a obra se coloque em relação direta com a produção condoreira de Castro Alves, a qual pertence à terceira fase do movimento denominado Romantismo; e cujo intento, em época e realidade distinta, também foi a denúncia da situação do negro, obviamente guardadas as devidas proporções, pois se tratam de épocas distintas, com problematizações distintas.

A comparação, se é capaz de fazer-nos vislumbrar semelhanças, também acentua as diferenças. Quem fala já não é a voz do poeta que olha e denuncia a situação do outro, mas é o outro que, por si próprio, expõe suas feridas e as incongruências de uma sociedade na qual não se encaixa. As denúncias já não são marcadas pela palavra comedida de um intelectual romântico; agora, é a fala corrente, com suas marcas típicas da oralidade, que diz, que reclama, que expõe.

Há ainda um último aspecto que foi observado: o direito à propriedade. Ao início do conto, o narrador se pergunta:

"E o rim não é meu?"

e mais de uma vez retoma a questão. O ponto que ele coloca é: se o meu corpo me pertence, por que eu não tenho o direito de vendê-lo? Por que, das outras vezes em que precisei de verdade, o governo foi negligente, mas, agora que quero me sustentar, a lei importa? Por que só assim a minha existência importa?

O conto, então, nos insta a observar e ouvir essa nação zumbi, essa casta fantasma de homens negros que vaga pela noite, silenciada por uma sociedade que só reconhece a sua existência quando é para lhe apontar o dedo na face e listar erros, e

"a polícia em minha porta, vindo pra cima de mim. Puta que pariu, que sufoco! De inveja, sei que vão encher meu pobre rim de soco."


REFERÊNCIAS

CURY, M. Z.; ALIS, G. Marcelino Freire: ação política pela palavra. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 25, p. 120-148, 23 jul. 2017.

Dicionário Priberam da Língua Portuguesa <https://www.priberam.pt/>, acesso em 24 de abril de 2017.

FREIRE, M. Contos Negreiros. 2005. Rio de Janeiro: Record, 2005.