ANÁLISE #11: CIDADE: VIOLÊNCIA, TRÂNSITO E HIBRIDISMO

04/02/2018


CIDADE: VIOLÊNCIA, TRÂNSITO E HIBRIDISMO

ANÁLISE #11


ANÁLISE: Eles eram muitos cavalos
AUTOR: Luiz Ruffato

SINOPSE: Em sua obra, durante um único dia, Luiz Ruffato percorre a cidade de São Paulo tentando desvendá-la. A cidade onde vive o autor é apresentada em flashes e fragmentos de tipos, personagens, dilemas e angústias da megalópole.

Eles eram muitos cavalos é um livro de raízes urbanas, tendo por escopo a cidade de São Paulo. O romance, ao longo das páginas, coloca-nos em contato com toda a violência vivenciada nesse espaço - não só a física, mas também, de forma intensa, a psicológica. Somos apresentados desde à cena de um arrombamento até a de uma cachina; desde à prostituta até a mulher do lar que se subtrai diante da figura masculina do marido. Trabalhando a tessitura de uma cidade fraturada, cujas rupturas são insistentemente encobertas pelo discurso utópico da homogeneidade, que repete a ideia de que "todos somos iguais", Ruffato traz à superfície a voz dos marginalizados sociais.

Embora seja denominado romance, o livro de Ruffato se aproxima em muito às revelações fotográficas de uma câmera panóptica, capaz de abarcar, de uma só vez, a visão geral da marginalidade - nas mais diversas formas de se estar à margem. Mesmo carecendo da simultaneidade que esse conceito erige, a obra é capaz de, ao longo de sessenta e nove fragmentos, traçar um panorama bastante abrangente dos marginalizados. A abrangência resulta tanto da individualidade, retratada através dos flashes das vidas de indivíduos diferentes presentes em cada fragmento; quanto da coletividade que resulta da comunhão de espaço - a grande São Paulo, onde todos estão - e da continuidade estabelecida pela numeração e pelo passar das páginas que o suporte físico do livro pressupõe.

A já dita simultaneidade, que seria permitida pela câmera panóptica e cuja realização máxima é "impedida" pelo passar das páginas, é suplantada pela organicidade - uma estruturação que de tão viva é quase orgânica - que a estrutura da obra e o próprio conceito de romance conferem ao livro. Isso, é claro, guardadas as devidas proporções.

Ainda sobre a organização da obra, é importante ressaltar que ela estabelece intensa relação com o trânsito, conceito e realidade tão determinantes e presentes na cidade contemporânea. O meio urbano se caracteriza por variadas possibilidades de movimentação, algumas das quais, inclusive, apresentam certo aspecto de imediatez. É o caso, por exemplo, da midiamoção que, grosso modo, é a movimentação realizada por meio e mídias. No espaço urbano, porém, existem outros variados tipos. O mais clássico é a própria locomoção, que realizamos ao nos movermos; e a intramoção, que é a "movimentação" que realizamos para dentro de nós mesmos ao refletirmos.

No livro, inclusive, há mais de um exemplo de intramoção. É o caso da já referida mulher que se subtrai diante do marido. Devido a um acontecimento da noite anterior, ela, no fragmento "o que quer uma mulher", questiona-se sobre o que deseja da vida; e, enquanto reflete sobre isso, torna ao passado em suas lembranças, depois pensa sobre a sua situação no presente, movimentando-se em sua mente:


"e então aconteceu uma coisa engraçada parece que eu desmaiei viajei no tempo sei lá me vi de novo mocinha com meus colegas do grupo-de-jovens numa excursão nem imagino pra onde [...] e eu decidi que não quero mais essa vida pra mim não não quero[...] cansei nada vale tanto sacrifício trabalhar trabalhar trabalhar pra quê? [...] Tem que ter força... persistência... eu estou ficando velha o tempo está esgotando"


A referida subtração diz respeito ao fato de que, abrindo mão do que desejava, acaba conformada com sua própria situação diante de um marido acomodado que não se importa em mudar.

Esse trânsito para dentro de si mesmo volta a aparecer, por exemplo, no fragmento 48. Nele, uma mulher pergunta-se onde foi parar a sua felicidade. Nesse processo, também relembra seu passado e caminha, mentalmente, até o momento presente em que ela se perdeu daquela alegria que sentia. Ele é um exemplo de intramoção, mas também do hibridismo e, por isso voltaremos a falar dele mais a frente.

No que diz respeito à movimentação pelo espaço físico, a existência citadina a exige com frequência. Os constantes trânsitos, sejam eles voluntários ou forçados, ocorrem tanto no próprio interior da cidade (para o trabalho, para casa), quanto para dentro e fora de seus limites (entrada ou evasão de pessoas); e Eles eram muitos cavalos acompanha bem essa realidade. Podemos ver bastante disso na narrativa de histórias, a exemplo da contada no fragmento 4, "A caminho", em que um homem anda de carro pela cidade indo em direção a um aeroporto:


"O Neon vaga veloz por sobre o asfalto irregular, ignorando ressaltos, lombadas, regos, buracos, saliências, costelas, seixos, [...] sensuais as mãos deslizam no couro do volante, tumtum tum-tum, o corpo, o carro, avançam, abduzem as luzes que luzem à esquerda à direita, o bólido zune na direção do aeroporto de Cumbica, ao contrário cruzam faróis de ônibus que convergem de toda parte, [...]"


E também no 5, "De cor", no qual pai, filho e um terceiro companheiro de viagem realizam, a pé, o trajeto por uma rodovia:


"Vêm os três, em fila, pela trilha esticada à margem da rodovia. A escuridão dissolve seus corpos, entrevistos na escassa luz dos faróis dos caminhões, dos ônibus e dos carros que adivinha a madrugada. Caminham, o mato alto e seco roça as pernas de suas calças. [...] O homem busca o filho que marcha à frente escondido dentro de uma jaqueta puída, dois números acima do seu tamanho os ônibus os caminhões os carros as luzes São Paulo [...]"


Os efeitos do trânsito influem de forma marcada na estruturação das narrativas, que reproduz a pressa e o barulho através de onomatopeias, como o "tum-tum-tum-tum"; da ausência de pontuação ou o excesso dela, principalmente as vírgulas; da presença de trechos curtos; e, por fim, pela própria configuração gráfica e visual dos textos, que muitas vezes contam com cortes e espaços em branco. Tudo isso são elementos presentes no próprio fragmento 4, o que reitera que conteúdo e forma são dois aspectos intrinsecamente relacionados. Entretanto, não aparecem apenas nele, de forma que constam também em fragmentos como o 6, "Mãe", que narra a experiência de uma viagem de ônibus realizada por uma mãe com o intuito de visitar o filho no Dia das Mães.

Outro aspecto importante na obra é o hibridismo constante, resultante do fato de o espaço urbano ser marcado pela convivência, nem sempre pacífica, de seres humanos de origens e naturezas distintas. Esse hibridismo, esse contato de diferentes, apresenta-se na obra de duas formas. Primeiro, ele é humano, pois se apresenta no choque entre a realidade do marginal e a dos não-marginais, como o ladrão que precisa de socorro e o médico que se recusa a atendê-lo por questões pessoais:


"- Tarcísio... você lembra do assalto?, daquele assalto lá em casa? Pois então: um era esse, cara... Um era esse! E eu não vou salvar ele não, cara, não vou mesmo! Não vou mexer uma palha pra salvar ele... Ele quase fodeu a minha vida, cara, quase fodeu... Eu não vou operar ele não, estão me ouvindo? Não vou operar ele não! Se vocês quiserem, chamem outro, me denunciem pro CRM, façam o que vocês quiserem, não estou nem aí, eu não estou nem aí, estão me entendendo?, nem aí!"


E também entre as realidades dos próprios marginais, como o contraponto que há entre a já mencionada mulher do fragmento 48, que, vinda do meio rural, perdeu o sentido da vida em São Paulo:


"e era plena em sua felicidade a felicidade que temos aos sete anos e que ela agora com o som do microssystem ligado no último volume no décimo terceiro andar de um edifício em cerqueira césar jogada no chão quase bêbada desesperadamente reconhece mas meu deus como deixara escapar aquela felicidade em que momento da vida ela tinha se esfarelado em suas mãos em que lugar fora esquecida quando meu deus quando"


e o taxista, no fragmento 41, que encontrou lá o seu:


"Saí de casa muito cedo, menino ainda. Desci do norte de pau-de-arara. Se o senhor soubesse o que era aquilo... Um caminhão velho, lonado, umas tábuas atravessadas na carroceria servindo de assento, a matula no bornal, rapadura e farinha, dias e dias de viagem, meu deus do céu! Mas posso reclamar não. São Paulo, uma mãe pra mim."


Segundo, ele é formal, pois há, no livro, a convivência (não sem gerar estranhamento) entre textos literários tradicionalmente concebidos assim - e dos quais os trechos já transcritos são exemplos -, e textos não-literários. Exemplos destes são os fragmentos 2, "O tempo", que traz uma informação meteorológica:


"Hoje, na Capital, o céu estará variando de nublado a parcialmente nublado.
Temperatura - Mínima: 14°; Máxima:
23°. Qualidade do ar oscilando de regular a boa.
O sol nasce às 6h42 e se põe às 17h27.
A lua é crescente."


O fragmento 31, "Fé", que é a transcrição da oração a Santo Expedito; e o fragmento 36, chamado "Leia o Salmo 38", uma espécie de simpatia:


"leia o salmo 38
durante três dias seguidos
três vezes ao dia
faça dois pedidos difíceis
e um impossível
anuncie no terceiro dia

observe o que acontecerá no quarto dia"


O livro de Ruffato é uma obra rica para se abordar os mais diversos aspectos. Nesse texto, escolhemos falar da violência, do trânsito e do hibridismo; mas também poderíamos falar da educação, do machismo, da prostituição e de diversos outros assuntos. Formalmente, poderíamos discutir os conceitos de pastiche e bricolagem, em vez de o de fotografia. Cada fragmento é um flash que conta uma história por si só: essa é uma das maravilhas de Eles eram muitos cavalos. A verdade é queuma obra que nos permite olhar os mundos dos mais diversos ângulos sem esgotá-los, merece ser lida - e, mais que isso, um livro que dá voz aos silenciados precisa ser escutada.

Quantas vezes for preciso.


REFERÊNCIA

RUFFATO, L. Eles eram muitos cavalos. Rio de Janeiro: Record, 2007