ANÁLISE #10: O MESTRE DO TERRÍVEL

19/01/2018


O MESTRE DO TERRÍVEL

ANÁLISE #10

ANÁLISE: O Barril de Amontillado

AUTOR: Edgar Allan Poe

SINOPSE: O Barril de Amontillado é um conto passado numa cidade não especificada, em Itália, e conta-nos a história de um homem, o narrador, que pensa ter sido insultado por um amigo e pretende vingar-se mortalmente. A vingança é preparada e a vítima, Fortunato, é atraída a uma catacumba onde supostamente existe um barril de amontillado proveniente de uma colheita especial e rara.


Toda vez que leio Edgar Allan Poe (ou sobre ele e suas teorias), sempre me pego pensando que ele era uma pessoa profundamente ligada ao controle no que dizia respeito à sua escrita. A importância que dá ao domínio da extensão - para ele, contos deveriam ter um tamanho que permitisse uma leitura de "uma só assentada" - e das impressões que busca causar em seus contos, além do reforço à ideia de que é necessário saber aonde se quer chegar para só então elaborar o como, faz com que eu veja em Poe um homem orientado pela ideia de prática muito mais do que pela de inspiração - um feito e tanto, considerando o fato de ter nascido 1809 e morrido em 1849, vivendo sob a égide do Romantismo, movimento que, estendendo-se por grande parte do século XIX, supervalorizava a inspiração e a subjetividade.

Frequentemente, encontro-me às voltas com seus contos, dos quais um é meu preferido. Sou completamente fascinada por "O barril de Amontillado". Li-o pela primeira vez aos dezenove anos e, desde então, ele jamais saiu da minha cabeça. Ao longo dos dois anos seguintes, reli cada página pelo menos três vezes. Entre tudo que ele me apresenta e me mostra, o impressionante de verdade é que, só agora, lendo-o com o objetivo de analisar, dei atenção de verdade às minúcias tanto prezadas por Poe: a extensão ou o tamanho do conto; o efeito (final, o que o conto quer provocar: medo, assombro, desespero, encantamento?); e o desfecho, que é o final.

Sobre a extensão, cerca de oito páginas, cumpre bem ao propósito de ser lido de "uma só assentada", ou seja, sentando-se uma única vez e conseguindo lê-lo inteiro. Para Poe, se o conto se estendesse por muito mais que isso, perderia sua capacidade de causar a impressão, o efeito desejado no leitor, então era de suma importância para ele ser bem-sucedido nesse aspecto.

No que diz respeito aos outros dois pontos, a conversa torna-se um pouco mais complicada. Se me perguntassem, em uma prova, "qual era o efeito pretendido por Poe nesse conto?", não tenho certeza se eu conseguiria dar uma resposta única e definitiva, ou nomear as impressões em poucas palavras; porque, a cada leitura, enxergo "O barril de Amontillado" de maneira diferente.

O que fica bem claro, ao menos para mim, é que Edgar conhecia bem o desfecho antes mesmo de começar a primeira linha desse conto. Digo isso porque tudo, absolutamente tudo no enredo prenuncia aquele final. O mais espantoso é que o leitor não se dá conta até as últimas linhas. É por isso que eu considero esse um conto de releitura, especialmente para pessoas de atenção dispersa como eu; pois, a cada vez, mais detalhes que passaram despercebidos avultam e você percebe que, de verdade, tudo guiava àquilo.

Começamos o conto com duas informações essenciais, dadas desde o primeiro parágrafo: trata-se de um conto sobre a vingança promovida de forma a punir com impunidade. Diz o narrador:


"Um insulto permanece sem troco quando os efeitos da vingança atingem ao próprio vingador, ou quando este falha em tornar-se conhecido como tal daquele que o insultou"


Desse trecho, já podemos abstrair o tom e o enredo da narrativa: a vingança silenciosa que se orquestra de forma que o vingador saia ileso, mas o alvo da vingança conheça-o e, mais que isso, reconheça-o como autor de tal. Resta-nos conhecer o como.

Dada essa observação inicial, o narrador passa ao alvo de sua retaliação, Fortunato. Um dos aspectos que Poe ressalta ao falar sobre a escrita do conto, é o fato de que nada no conto deve ser fortuito; todos os acontecimentos, detalhes, observações devem corroborar para que se atinja o desfecho. É por isso que, quando o narrador, ao falar sobre o conhecimento de Fortunato por vinhos, cita a si próprio, aquele trecho me chamou a atenção.


"Nesse assunto, aliás, eu mesmo não diferia muito dele - era emérito conhecedor (...)"


Sabendo que ele era um conhecedor de vinhos, soa-nos estranho quando alega não saber reconhecer com certeza um barril de Amontillado. Ou ele mentia sobre conhecer, ou dissimulava-se. Entretanto, para Fortunato, bêbado e trajado de palhaço por causa do carnaval (sim, santa ironia), nada parece ter de anormal o pedido de seu amigo para que confira a procedência do vinho - ainda mais quando esse lhe afaga o ego, apontando-o como alguém a quem teria recorrido se tivesse sido possível:


"Tenho minhas dúvidas (...) e fui tolo a ponto de pagar por ele sem o consultar primeiro. Mas é que não consegui encontrá-lo e fiquei com medo de perder um bom negócio".


Como prenunciado inicialmente, a vingança se orquestra silenciosamente e usa como arma não algo teatral, como uma faca ou uma espada, mas os vícios de fraquezas do alvo. Fortunato é um homem que, além de ser dado a bebidas, é extremamente orgulhoso e egocêntrico. O narrador, como alguém que conhece bem a sua vítima, sabe disso e, mais, sabe como usar isso para distorcer os papéis:


"- Caso você tenha algum compromisso, vou procurar Luchesi. Se existe alguém de senso crítico, é ele. Ele me dirá...
- Luchesi é incapaz de distinguir um Amontillado de um Sherry
- E, no entanto, alguns tolos diriam que o paladar dele se compara ao seu.
- Vamos lá."


Conhecendo o egocentrismo de Fortunato, o narrador não só o compara em capacidades de avaliação a Luchesi, mas também oferece como um substituto à altura. A reação de Fortunato não é outra a não ser revoltar-se, ao que recebe, como resposta, mais um afago em seu ego. Com isso, acaba por pedir que seja levado para ver o tal barril. É a primeira vez que o ardil do narrador fica evidente, pois ele se mostra capaz de fazer com que a ideia, que originalmente era dele, pareça de Fortunato - a mencionada distorção de papéis.

Conquistada a primeira vitória - o pedido - o narrador tenta dissuadir mais de uma vez o acompanhante, de forma a parecer se importar com ele:


"- Não, meu amigo. Não quero abusar de sua boa vontade. Percebo que você tem um compromisso. Luchesi...
- Não tenho compromisso nenhum. Vamos
- Não, meu amigo. Não é pelo compromisso, mas porque vejo estar você severamente resfriado. A adega é insuportavelmente úmida. Está cheia de incrustações de salitre"


Essa não é a última vez que ele toca no assunto da saúde de Fortunato, sempre aproveitando para encher um pouco mais seu ego já inflado:


"(...) Vamos voltar; sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado, é feliz, como um dia eu também o fui. Sua falta será sentida; a minha, não. Vamos voltar; você ficará doente e eu não quero responsabilizar-me por isso.(...)"


Assim como volta a Luchesi, para novamente provocar o orgulho do outro:


"(...) Ademais, há Luchesi...
- Chega - redarguiu ele (...)"


De forma que, caso ambos tivessem a chance de retomar o diálogo, sempre pareceria que o narrador o tenta demover da ideia, nas palavras, enquanto o estimula, nas intenções. Um uso dissimulado da psicologia reversa.

O próprio narrador confirma usar desse ardil não com Fortunato, mas com seus empregados, fornecendo junto a informação de que a casa estava vazia, a não ser pela presença dos dois:


"Não havia criados em casa; tinham ido divertir-se. Eu lhes havia dito que não voltaria senão de manhã e tinha-lhes dado ordens explícitas de não se ausentarem da casa. Tais ordens eram suficientes, sabia-o bem, para fazê-los desaparecer de imediato, tão logo eu lhes voltasse as costas."


O fato de os empregados estarem coincidentemente ausentes põe em cheque o próprio tom de acidentalidade queo narrador parece tentar conferir ao dia de sua vingança, ao dizer que "encontrou" Fortunato, e não que o procurou.

A insistência sobre a presença do salitre é outro aspecto que sobressai, de forma que temos a constante consciência dele ao redor dos personagens em todos os recantos e alcovas.


"- Mas observe o fino rendilhado que brilha nas paredes dessa cava (...)
- Salitre? - perguntou, por fim.
- Salitre. - repliquei. (...)"


Pouco depois, no que insistia de novo sobre a saúde do companheiro, o narrador faz a sugestão que ia de encontro ao fato de Fortunato já estar bêbado:


"(...) Mas você deve tomar todo o cuidado. Um trago deste Médoc nos defenderá dessa umidade."


Fortunato, além de já estar bêbado, não tinha motivo algum para desconfiar do companheiro, uma vez que esse nunca havia dado nenhum; logo, aceita de bom grado a bebida. Enquanto bebe, seus guizos tilintam, o que faz com que ele pareça ainda mais um palhaço ou um bobo da corte, dada a direção que a situação seguia. Tanto é que as referências ao tilintar se repetem até o final.

No que eles brindam e seguem caminho, sempre guiados pelas duas tochas acesas que o narrador pegara na entrada, surge o assunto dos Montresor. Pelo que a narrativa deixa entrever, os Montresor eram os donos anteriores do lugar - da catacumba e aparente adega - por onde ambos agora caminhavam.

Arrisco-me a dizer que quem eram tem menos importância informacional do que a frase que servia de legenda, no conto, ao seu brasão e que o narrador menciona: "Nemo me impune lacessite", que significa, em português, "Ninguém me fere impunemente". Essa frase, que era o lema oficial do Reino da Escócia, funciona, na história, como uma clara retomada, além de um aviso subentendido. Como um metatexto - um texto falando sobre outro texto; ou, mais claramente, o lema resumindo e, ao mesmo tempo, prenunciando o que todo o conto reservava e representava: a realização prática do que, em um brasão, parecia apenas teoria.

O fato de, naquele ponto, o narrador não afirmar se pertencia ou não à família Montresor é de suma importância; porque isso faz com que, até o final do conto, ele permaneça como um anônimo para os leitores. Apenas Fortunato sabe quem ele - o narrador - é, nós não. Dessa forma, o vingador é alguém cujo nome é conhecido apenas pelo alvo de sua vingança, Fortunato, mas por ninguém mais, até que a vingança esteja realizada. Só então, ele é revelado para todos que o leem.

É interessante notar, também, como o próprio narrador bota em cheque a segurança do que diz. Antes de afirmar ver "paredes de esqueletos empilhados de mistura com tonéis e quartilhas", diz que a sua "própria imaginação aquecera-se com o Médoc", de forma que, se não havia, de fato, visto coisas, poderia muito bem tê-las aumentado. Isso não só naquele instante, mas dali em diante - até o fim do conto.

Em seguida, ocorre algo sobre o qual eu não posso falar com total certeza, mas que me deixou uma pesada impressão. O narrador, após dizer que daria mais um trago de Médoc, entrega ao amigo uma garrafa de De Gravê, que ele bebe sem notar a diferença. Por ter sido apresentado e apresentar-se como um bom entendedor de vinhos, parece-me estranho que ele não note a diferença, uma vez que os nomes desses dois vinhos foram dados de acordo com a região francesa de onde provêm, de forma que devem ser distintos para quem realmente os conhece; o que só deixa duas opções: ele era uma falácia ou ele estava alterado demais àquele ponto da descida. Ambas me parecem possíveis, uma vez que Fortunato se assemelha muito mais a um simples alcoólatra do que a um especialista de verdade.

A parte sobre a maçonaria - o gesto desconhecido pelo narrador que Fortunato faz com a mão - passou-me meio obscura. Primeiro porque não disponho de conhecimentos profundos sobre a maçonaria; segundo porque me pareceu estranho que um maçom real falasse abertamente sobre; terceiro porque o ponto que mais chama a atenção é a presença da trolha.

A trolha, ou colher de pedreiro, que o narrador usa para "justificar" também ser maçom, é, de fato, um símbolo da maçonaria. Fortunato, ao vê-la, pergunta se seu companheiro não está gracejando. Pesquisando o significado - ela significa a tolerância para com os demais irmãos - percebo que ele estava, sim, e muito. Uma piada, entretanto, que fugia a qualquer outra pessoa que não ele mesmo, pois era o único conhecedor da pouca tolerância que tinha para com Fortunato e seus insultos, os quais haviam dado origem a todo aquele plano de vingança.

O jogo de psicologia reversa, o salitre e a pá são os indícios mais claros do destino que o narrador preparava. Caminham então mais para baixo, mais a fundo. Essa descida, aliás, entra em consonância com o fato de que, de algum modo, aquele era o momento de queda de Fortunato. Nesse ponto, há mais uma menção a ossos, mas agora não em uma parede e sim, em uma pilha. É o quarto elemento e também a quarta dica do plano que já estava traçado e em curso. Mas Fortunato só percebe tudo quando já está preso em uma estreita alcova, algemado por correntes a uma parede cheia de salitre.

De debaixo da pilha de ossos, saem os materiais para construção (argamassa e pedras para construção) que, com a ajuda da trolha, o narrador usa para emparedar um perturbado e bêbado Fortunato, cuja pergunta, até quase o fim, é sobre o Amontillado. O mesmo Amontillado que deu o título ao conto, pelo qual esperávamos tanto quanto o próprio Fortunato e que encerramos o conto sem ver.

Usando a propriedade comburente do salitre, ou ao menos assim se faz supor, é que o narrador ateia fogo ao homem recém-emparedado, recebendo de volta "apenas um tilintar de guizos". Vendo Fortunato terminar fazendo papel - e vestido - de palhaço, só consegui pensar na ironia da expressão "quem ri por último, ri melhor" em relação com a figura apatetada de um homem fantasiado preso; pois palhaços e bobos da corte são figuras associadas ao trabalho de fazer rir; e Fortunato estava trajado como um quando proporciona ao narrador sua última e definitiva vitória. Ou seja, o ditado torna-se mais literal do que o imaginado, ainda que o narrador não ria de fato.

No fim, também vemos ressoar aquele pequeno aviso sobre o brasão da família Montresor:


"- Pelo amor de Deus, Montresor!
- Sim - disse eu -, pelo amor de Deus!"


A fala de Fortunato faz-nos supor que o narrador era, de fato, um Montresor, o que o tira do anonimato e torna-nos também conhecedores de sua identidade; contudo, com meio século de lapso em relação à data do acontecido:


"Há meio século que mortal algum os perturba"


Com isso, o conto termina, não sem ironicamente dizer "In pace requiescat!", que quer dizer, em português, "Descanse em paz!".

A maior ironia do conto, no entanto, não está no final nem nas relações que estabeleci com o ditado; mas no nome do desafeto de Montresor. Fortunado tem origem no latim, fortunatus, e significa afortunado, homem de sorte. Isso, quando contraposto ao final, mostra-o como o completo contrário. A sorte lhe passou longe.

Antes de encerrar a análise, sinto a necessidade de deixar uma observação. Não raro, vejo as pessoas colocarem Poe como "o mestre do terror", ou, ao menos, "o mestre dos contos de terror". Indo ao dicionário, encontrei que 'terror' é a "característica do que é terrível", além, é claro, de "estado de pavor". Curiosa, estendi a pesquisa para o significado de 'terrível': aquilo "que infunde ou causa terror; assustador, temível".

Certo, até aqui eu pareço estar rodando em círculos indo de 'terror' a 'terrível' e tornando àquele. Entretanto, logo abaixo me veio um dos outros significados possíveis - e que me fez parar: "Contra o qual não se pode lutar; invencível". Lendo isso, cheguei à conclusão de que, para certos contos de Edgar, e especialmente para "O barril de Amontillado", é importante resgatar o adjetivo 'terrível' que está implícito no substantivo 'terror'; porque nesses casos, é mais do que o estado de pavor - é a certeza paralisante do inevitável. Como a vingança que já estava em curso e finalizada desde antes do princípio. Essa foi a impressão maior que o conto deixou em mim.


OBSERVAÇÃO: Essa análise baseou-se, em grande parte, no texto traduzido para o português; portanto, é possível que alguma parte do enredo ou algumas peculiaridades de significado tenham sofrido alteração durante a tradução. 


REFERÊNCIA

POE, E. A. Histórias extraordinárias. São Paulo: Companhia de Bolso, 2008.