ANÁLISE #09: A LIÇÃO DE SER POETA

09/01/2018

ANÁLISE DO POEMA: A Lição de Poesia (1945)


A LIÇÃO DE SER POETA

ANÁLISE #09

Embora muitos brasileiros reneguem a nossa cultura por uma síndrome comum de vira-lata, é sabido pelo mundo inteiro que o brasileiro é rima, ritmo e melodia. Não é somente da prosa machadiana ou rosiana que nós constituímos a nossa história erudita e popular, mas também de algo a mais, algo que encanta o mundo inteiro: a poesia.

Temos tantos poetas que perdemos as contas há muito tempo, temos tantas poesias que não sabemos de quais falar quando nos perguntam qual é a nossa preferida! É a poesia de Drummond? É a poesia de Lemiski? Ou é a poesia de Vinícius de Moraes? Temos tantos poemas que nos embalamos em suas coincidências e sincronias melódicas e rimadas, e, nós, por termos e podermos, recitamos brincando ou usamos em nosso cotidiano por estarem intrínsecas em nossa língua. Quem nunca disse "E agora, José?". Quem não conhece o Severino?

São desses grandes nomes do passado que podemos nos orgulhar e que nos inspiram confiança de que no futuro existirão mentes brilhantes para substituí-los, visto que esse teor poético nos pertence e nos eterniza como constantes poetas. João Cabral de Melo Neto não é somente um poeta, mas o poeta, entre tantos nomes famosos de nossa literatura. E, como alguém de renome, nome e sobrenome, ele nos deu a possibilidade de não somente conhecer o processo poético, como entendê-lo e esmiuçá-lo em sua mais profunda estrutura a partir do poema "A Lição de Poesia", presente no livro O Engenheiro (1945).

Começando pelo título, percebemos que o poeta não fala sobre o poema, mas toda a poesia. O termo poesia e poema vieram da palavra grega "poiesis", provinda do verbo grego "poiein", que significa "fazer, criar ou compor". A diferença entre poema e poesia é que, respectivamente, um é texto e o outro é a arte.

Para definir melhor, o Houaiss define poesia como "a arte de criar imagens, de sugerir emoções por meio de uma linguagem em que se combinam sons, ritmos e significados", ou seja, é todo o processo artístico capaz de definir um estilo poético de um autor específico, por exemplo, ou a própria expressão artística em sua forma mais crua, enquanto, por sua vez, o poema é definido como "obra em verso ou não em que há poesia", no caso, seria a própria representação do texto.

O poema a ser trabalho é "A Lição de Poesia", embora o poema trate sobre toda a arte poética e a própria poesia que corre de dentro do poeta até a folha, ele ainda é um poema, pois é um texto poético que se configura como uma unidade.

Então, com toda a sua crítica e performance, João Cabral de Melo Neto nos demonstra, poeticamente, todo o processo complexo e sofrido do escritor-poeta que se faz presente em nossas vidas, em nossa língua e em nossa cultura. Dividido em três partes, o poema é extremamente simétrico, sendo preenchido por dez estrofes e, em cada uma delas, há quatro versos.

Em uma leitura própria - e também como alguém que gosta de criar textos e poemas -, acredito que a estrutura utilizada pelo autor é proposital, pois a vida, embora tenha suas nuances e suas pausas, o ato de escrever do poeta, no final, quando cria, não tem. Pois há necessidade, há amor, tanto quanto há esforço. Ele, para o autor, faz mais do mesmo - conhecendo a palavra como conhece a folha em branco e o suor do esforço.


Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
Princípio do mundo, lua nova.


A cada vez que o poeta reconhece a folha em branco, toma-a para si e tenta colocar letras, palavras, versos e detalhes, ele principia um mundo inteiramente novo. A arte de fazer poesia, a lição primorosa da poesia - e primária dentro do poema - é de que a cada ato, a cada gesto do escritor, um mundo novo invade o mundo.


Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:


Contudo, não é fácil. O poeta é sensível ao mundo que coexiste e ao mundo que ainda nem sequer saiu do pensamento. As letras podem se perder, os versos fazem curvas sinuosas e somem diante dos seus olhos afoitos e poéticos. Às vezes, escrevemos vinte linhas em minutos; às vezes, não escrevemos uma vírgula em três horas. A arte da escrita e de fazer poesia é singular, pois ela depende de muito mais do que uma folha em branco e uma caneta à mão.


nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.


O tempo passou - e como diz o primeiro verso -, toda a manhã foi consumida. Nada foi feito. O sol do meio-dia já não é mais imóvel e a cada momento, a cada papel, a cada segundo, a cada hora: o poeta anseia criar. Ele não se importa com o que realmente vai criar, ele simplesmente deseja criar alguma coisa. O processo, a lição primorosa é que o escritor precisa ser paciente consigo, com a folha e com o tempo: com três partes de uma criação, como as três possíveis partes da poesia, como as três partes de um dia: manhã, tarde e noite. Como tantas outras três partes que podem caracterizar o andar do tempo, o andar da criação e o andar da própria vida.


A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.


Encontramos a segunda parte do poema, que ainda é transição e que ainda permanece. O dia já se extinguiu, a lua já apareceu no céu e o poeta continua a tentar salvar a sua escrita e a sua poesia. Ele tenta salvar a si mesmo, os monstros que lhe abitam, para que saiam de sua mente e invadam as páginas brancas do papel com a tinta da caneta.


Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.


Os monstros estão lá, os bichos e os fantasmas - todas as criaturas que o apavoram, que lhe remetem e que o são. Nesse momento, Cabral usa um recurso muito utilizado na poesia chamado enjambement, que consiste em um desalinhamento da estrutura, tanto métrica quanto sintática, da composição. Nessa estrutura complementar, as criaturas que o perseguem na mente são tanto parte do que ele precisa externar quanto, a partir do enjambement, as próprias palavras. As palavras que tanto fazem o poeta conhecido, são seus próprios monstros, bichos e fantasmas.

Essas criaturas - que são as palavras e tantas mais outras coisas - estão ali, zombando dele enquanto permanecem entre o meandro de estarem em sua mente e encontrarem-se no papel. Elas, quando querem, sujam-no.


Carvão de lápis, carvão
de ideia fixa, carvão
de emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.


Sujam-no de carvão. Usar a palavra carvão também é um ato proposital do poeta, visto que a simbologia do objeto nada mais é que energia oculta, que representa, geralmente, um fogo escondido, um fogo a ser acendido. O carvão é a representação mais plena do potencial que está lá, mas dorme. É a representação mais plena da necessidade de uma centelha de fogo para despertar o que ali se esconde.

O carvão pertence ao lápis, pois é o material que utiliza para esboçar as ideias que lhe fogem, é da ideia fixa que se prega em um potencial que se permite, mas que também se esvai. É a emoção extinta, que deseja ser, mas que não é, e é o carvão que consome nos sonhos, porque está lá em cada imagem da mente do poeta, mas não desperta na folha de papel.


A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.


A luta branca, na terceira parte do poema, representa tanto uma luta não armada quanto a própria brancura do papel, que permanece sem palavras e que o poeta evita, pois deseja escrever. Como outrora dito, qualquer mundo basta. Contudo, mesmo que essa luta seja branca, em ambos os sentidos que branco pode significar, ela possui a mancha do poeta porque ele luta, esforça-se e permanece sem desistir, pois ser escritor-poeta é permanecer com as manchas de carvão e as manchas de suor.


A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis - naturezas vivas.


Algo ocorre, como ocorreria no clímax do terceiro ato de uma peça, ocorre no terceiro ato do poema. A paciência do poeta é recompensada, em algum momento. Ele se assusta; o mundo criado e o mundo que existem se assustam. O esforço do gesto diário, do hábito de escrita é compensado e recompensado, de alguma forma. O susto permanece nas coisas jamais pousadas na folha de papel, porque elas ainda estão lá para serem ditas, mas não foram, que imóveis ainda estão vivas na mente do seu criador que não criou, pois não são necessariamente os sentimentos do poeta e o que desejava fazer que ficaram e sim, os esforços contínuos.


E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.


Tal comprovação de que o que ele desejava escrever não foi escrito, o que ele desejava que fosse inédito não aconteceu são as últimas duas estrofes que remontam as vinte palavras recolhidas depois de tanto esforço, nas águas salgadas do poeta, muito embora não fosse o que queria, era útil o suficiente para usar. Esse é um processo comum de escritores que sempre buscam melhorar seu trabalho: nunca é o suficiente, mas, vez ou outra, sai algo útil na possibilidade presente.


Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.


Nós conhecemos todo o processo, todo o esforço e todo o resultado final. Nós conhecemos, como escritores, as palavras que recaem sobre o papel, velhas amigas íntimas que nos visitam em nossos momentos de necessidade. Entretanto, tudo que queríamos dizer além de palavras vagueia em nosso pensamento, desejando sair, desejando aparecer para o mundo sem conseguir. As que recaem sobre o papel não são tão densas como as que permanecem conosco, elas são menos densas que o ar porque são menos densas do que queríamos que elas fossem.

O escritor-poeta deseja tocar com sua sensibilidade e a densidade de seus pensamentos, sentimentos e sensações, porém, nem sempre conseguimos, nem sempre nosso esforço é recompensado - muito embora alguns possam achar, o verdadeiro poeta nunca acha.

Há duas grandes lições em a Lição de Poesia. A primeira é que todos somos gananciosos, sempre querendo melhorar cada dia mais - e essa melhora nunca é suficiente. A segunda é que, em nossa ganância e nosso desejo contínuo, nunca desistimos - e não devemos, essa é a maior verdade de ser poeta.


REFERÊNCIAS

CHEVALIER, J.; GHEERBRANT, A. Dicionário dos Símbolos. 28ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.
HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 2001. 
MELO NETO, João Cabral de. Melhores Poemas João Cabral de Melo Neto. Poemas. Seleção e prefácio de Antonio Carlos Secchin. 10 ed. São Paulo: Global, 2010.
SOUZA, Helton Gonçalves de. A poesia crítica de João Cabral de Melo Neto. São Paulo: Annablume, 1999.