ANÁLISE #08: A PERDA DO MEDO DO SOBRENATURAL

24/12/2017


A PERDA DO MEDO DO SOBRENATURAL

ANÁLISE #08

ANÁLISE: Saga Crepúsculo
AUTORA: Stephenie Meyer

SINOPSE: A estudante Bella Swan conhece Edward Cullen, um belo mas misterioso adolescente. Edward é um vampiro, cuja família não bebe sangue, e Bella, longe de ficar assustada, se envolve em um romance perigoso com sua alma gêmea imortal.

Outrora, os uivos dos lobisomens e a possibilidade de sermos mordidos por vampiros eram ideias que passavam na cabeça dos homens como algo assustador e terrível, eles fugiam porque o medo percorria suas veias; os mais corajosos enfrentavam, tentando deter monstros malévolos que comeriam as suas famílias. Entretanto, nos dias atuais, fugindo completamente desse estereótipo medieval, o medo e a obsessão pelo sobrenatural se tornaram fascínio.

Quando lemos ou ouvimos alguém comentar algo como "morra como herói ou viva o suficiente para se tornar vilão", vemos uma contradição a respeito do sobrenatural. O sobrenatural está conosco há muito tempo, mais tempo do que realmente imaginamos, entretanto, o medo inicial que tínhamos dele, parece, aos poucos, ter desaparecido quase que por completo da ficção.

Um grande exemplo dessa explosão da perda do medo do sobrenatural é a saga Crepúsculo (em inglês: Twilight), escrita por Stephenie Meyer. Não que essa fuga já não estivesse acontecendo dentro da literatura, aos poucos, porém, a obra em questão me parece o ápice, pois coloca uma humana entre dois seres sobrenaturais que disputam a sua atenção - e um deles brilha.

O livro, levado ao conhecimento público a partir do filme, não é - em minha opinião - a melhor obra da autora, porém foi a que mais expandiu o mercado do sobrenatural como algo fascinante.

Embora seja um interessante motivo de zombaria, a figura do vampiro Edward, aquele que brilha como diamantes quando exposto ao Sol, é a maior prova e constatação que estamos perdendo o medo do sobrenatural, além disso, estamos tornando-o incrível e fascinante.

Figuras apresentadas por Bram Stoker como sombrias, feias e nefastas, na contemporaneidade, ganham outras formas mais belas, mais conceituadas e também mais romantizadas.

A primeira pergunta que podemos nos fazer é: por que isso está ocorrendo? As pessoas deixaram de gostar dos antigos monstros e dos clássicos? Acredito que as pessoas não deixaram de gostar dos clássicos ou como eles foram moldados e narrados, porém a contemporaneidade tem outra visão de mundo que, na época desses autores, nós não possuíamos.

Então, devemos levar em conta essa mudança de percepção que temos sofrido. Entretanto, por qual motivo ela ocorre? Talvez, essa seja a segunda pergunta essencial para tentar compreender - sem esgotar as possibilidades - esse processo.

De acordo com a sua origem, a palavra sobrenatural se compõe pela preposição "sobre" e pela palavra "natural". A ideia que essa palavra transmite é "aquilo que está sobre/acima do natural", ou seja, de acordo com o Houaiss, é o "que ultrapassa o natural, fora das leis naturais, fora do comum; extranatural".

No entanto, o que realmente é sobrenatural para nós, cada vez mais céticos dentro de nossas crenças? Na época medieval, as pessoas acreditavam muito mais em histórias sombrias de criaturas monstruosas do que nos dias atuais. Hoje, nós não acreditamos mais, então, todo o teor de receio e medo que essas figuras poderiam nos passar perdeu-se.

Entretanto, também não podemos reduzir o sobrenatural como algo, literalmente, extraordinário e monstruoso. O fato é que o sobrenatural era o mesmo que aquilo que as pessoas desconheciam, sendo assim, achavam ser algo antinatural e, automaticamente, temiam. Lembram-se das bruxas queimadas nas fogueiras pelos fanáticos que precisavam de alguém para culpar? Ou do filme, Hotel Transilvânia (2012), que mostra a perspectiva do Drácula em relação aos homens que, temerosos demais, queimaram sua casa?

Vou trazer mais uma questão à tona, tão importante quanto as demais: O quanto julgamos alguém sem conhecê-lo? Como se movem os nossos preconceitos? Nós tememos um ruído qualquer no meio da noite, até percebermos que não passava de um gato, certo? A questão é que o sobrenatural - na nossa crença contemporânea - também é o que aquelas pessoas, e nós mesmos, desconhecemos, mas, um dia, vamos conhecer.

Logo, o sobrenatural passou não mais a ser algo a ser temido, mas algo a ser descoberto. Quantos de nós achamos fascinantes as descobertas dos grandes cientistas? A ideia se instaura nessa questão e, por conta disso, desse excesso de desejo por explicações, as narrativas contemporâneas buscaram julgar as atitudes dos personagens - coisa que antigamente não possuíamos -, as suas origens e também o seu lado sombrio, afinal, tudo precisa de um motivo.

Mas que lado sombrio é esse? Que revolução de pensamento é essa que está nos moldando? Esse compilado de questões faz parte da terceira questão e gostaria de me aprofundar na ideia que ela traz: se o sobrenatural outrora era algo que desconhecíamos e prejulgávamos, então, o que representa o sobrenatural para o que nós somos e sabemos agora?

Vivemos em uma fase onde questionamos continuamente as nossas atitudes como seres humanos e repletos de manias e preconceitos sociais. Nós, para algumas pessoas, "vivemos na era chata do politicamente correto", pode parecer muito confuso relacionar as duas ideias, mas não é tão estranho assim, como vai perceber muito em breve.

Se julgamos tudo, principalmente as nossas atitudes, por que não julgaríamos as atitudes dos autores passados, das pessoas que viviam e eram limitadas, muita das vezes, somente ao conhecimento passado pela Bíblia?

Muitos de nós julgam pessoas do passado como se elas estivessem vivas hoje e possuíssem a nossa mentalidade globalizada, na qual a informação possui fácil acesso, coisa que é realmente estranha, mas compreensível, visto que precisamos julgar o outro antes de nos julgarmos, para culparmos, antes de tudo, as diretrizes da nossa sociedade, antes de fazermos conosco.

Logo, se aquelas pessoas trataram mal outras que eram diferentes delas ou do que elas acreditavam como boas para o convívio social, por que não fariam com o que desconheciam completamente? Seja ele verdadeiro ou não, os monstros da contemporaneidade somos nós mesmos, os seres humanos. Dessa forma, o vampiro malvado tornou-se o vampiro injustiçado, o lobisomem - que não queria se transformar - não era culpado por machucar ninguém. Frankenstein? Ele somente é uma vítima nas mãos do doutor, obcecado por conseguir alcançar o seu experimento e ser reconhecido por todos!

Nós subvertemos tudo, justamente porque percebemos que os monstros representados por outras criaturas não passavam de ninguém mais e ninguém menos do que nós mesmos, transvestidos em aparências que não gostaríamos de ter e cheios de desejos que nós, socialmente, abominamos.

Claro que toda essa construção levou tanto tempo quanto as mudanças na sociedade, nas questões atuais que movem a sociedade, porém, a explosão desse valor superestimado de criaturas sobrenaturais - transvestidas do belo e do bom - ocorreu no século XXI.

Embora, não possamos negar influencias que já destacavam a bela aparência, por exemplo, dos vampiros: não como algo positivo, mas um mecanismo para atrair suas vítimas. Então, os escritores - talvez percebendo ou não - trouxeram à luz mais uma crítica social: nós julgamos muito pela aparência, o que nos leva a verdadeiros problemas. Nós vivemos em uma sociedade visual, na qual nos importa o que vestimos e o que parecemos para os demais.

Seria uma coincidência, Anne Rice, por exemplo, fazer o belo Lestat? Ou seria uma influência do nosso pensamento moderno? Nós nos importamos, tanto quanto os nossos antepassados, com as aparências, mesmo que, às vezes, finjamos que não e lutemos com "preconceitos idealizados pela sociedade". Nós superestimamos as figuras belas e deixamo-nos levar por elas, como um vampiro que seduz a sua vítima.

Mas se ainda nos importamos com as aparências e continuamos prejulgando, qual é a nossa diferença com nossos antepassados? Essa questão pode ser deixada em aberto, entretanto, acho que vivemos um instante de cada vez e, nenhuma mudança significativa, fez-se do dia para noite. Nós estamos mudando, mas, toda vez que damos um passo para frente, é bem capaz que demos - em seguida - dois para trás. Contudo, para percebermos a mudança, basta-nos olhar para a literatura.

Ela vai lhe mostrar o quanto andamos - seja para frente ou para trás.


REFERÊNCIAS

MENDES, Paula Viana. Por que não magia?: a sedução contemporânea pelo mundo mágico de Harry Potter. São Paulo: Annablume, 2008.
MEYER, Stephenie. Crepúsculo. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008.
______. Lua Nova. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008.
______. Eclipse. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009.
______. Amanhecer. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009.
TARTAKOVSKY, Genndy. Hotel Transilvânia. EUA: Columbia Pictures, 2012.
TODOROV, T. Introdução a Literatura Fantástica. Perspectiva, 1981.