ANÁLISE #07: A MOTIVAÇÃO DO ESCRITOR EM CECÍLIA MEIRELES

07/12/2017

ANÁLISE DO POEMA: Motivo (1939)


A MOTIVAÇÃO DO ESCRITOR EM CECÍLIA MEIRELES

ANÁLISE #07

Cecília Meireles (1901-1964) foi uma jornalista, pintora, professora e, especialmente, uma das poetisas cariocas mais aclamadas da literatura brasileira. Isso se deve a natureza intimista e introspectiva dos seus escritos, muitas vezes situada num universo onírico no qual o sonho, o tempo, a morte e a infância se destacavam.

Suas criações são demarcadas pela musicalidade e pelas figuras de linguagem, aspectos claramente notáveis em seus sonetos. A poesia modernista da época, que atuava como uma forma de resistência aos modelos previamente estabelecidos, diverge um pouco do estilo diferenciado de Cecília - que se encaixa melhor, portanto, na segunda fase do modernismo. Junto dela vieram, mais tarde, autoras como Clarice Lispector (1920-1977), Lygia Fagundes Telles (1923) e Lya Luft (1938).

Proponho, hoje, a análise do poema Motivo, que abre o livro Viagem (1939). 

Eu canto porque o instante existe
e minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada
Num dia sei que estarei mudo
- mais nada.


Logo na primeira estrofe é interessante pensar nos significados do canto. Dentro dos estudos poéticos, o canto é denominado como a divisão principal de um poema longo (epopeia), como Os Lúsiadas de Camões, por exemplo. As epopeias eternizam lendas, que narram todos feitos grandiosos do protagonista e demarcam a jornada do herói.

Outra observação importante sobre o verbo escolhido está no fato de que, durante o movimento modernista, muitos poetas escreviam seus versos focando-se em recursos orais (temáticas e linguagem cotidiana), para que fossem declamados: ouve-se o canto do poeta. Portanto, ao dizer que canta, no presente, o eu-lírico, além de demarcar que o seu trabalho com a palavra acontece com frequência e ainda é verdadeiro ("o instante existe"), de maneira subliminar se enfatiza o poeta enquanto o eternizador da vida, essa a qual alega estar completa. O eu-lírico, poeta, sente-se pleno com o realizar de seu ofício.

"Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta."

Ao fazer uso da antítese (figura de linguagem que consiste em expor ideias opostas), temos a aproximação os antônimos "alegre" de "triste" e, ao afirmar que o poeta não é nenhum dos dois, pode-se haver duas interpretações. A primeira se volta para a imparcialidade do eu-lírico, que não escreve movido pelo impulso de seus sentimentos. Numa segunda perspectiva, está no foco ao instante, ao viver daquilo que o presente tem a oferecer (carpe diem), uma vez que se aceitam as circunstancialidades dos eventos experimentados e a efemeridade da vida - que, já completa, não se alimenta de ambições nem arrependimentos.

"Irmão das coisas fugidias 
não sinto gozo nem tormento
Atravesso noites e dias
no vento."


O eu-lírico alega parentesco para com a brevidade e utiliza-se, mais uma vez, da antítese para demonstrar seu desapego: sendo um espírito livre, não há espaço para sentimentos extremos. Conforme o Dicionário de Símbolos, o vento "é o sinônimo do sopro e, por conseguinte, do Espírito, do influxo espiritual de origem celeste". A passagem invoca, portanto, figuras divinas, o sentimento do onipresente. O poeta atravessa o tempo e se propaga através do ar, na abstração dos signos linguísticos, como um intermediário entre céu e terra.

"Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo."


Aqui há o papel duplo da poesia: construtor e destruidor, tanto para o leitor quanto para aquele que cria. Temos o eterno dilema da literatura e a problemática que move todo escritor. O eu-lírico não sabe identificar qual é o efeito de sua obra, e nos demonstra a sua inquietação. Implícita, e no mesmo viés, também está uma reflexão sobre a própria vida. É essencial notar, também, o recurso musical: as repetições de sons nasais e do "s", que remetem ao som de murmúrio e de pensamento hesitante.

"Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada
Num dia sei que estarei mudo
- mais nada."


Para concluir, o eu-lírico resume uma das temáticas tipicamente modernistas: a escrita por si só, enquanto prática. Simultaneamente, afirma novamente que o poema é a totalidade, pois vive para sempre - ao contrário daquele que o escreve. Ao utilizar-se da magnífica expressão "asa ritmada", nos emerge imediatamente a ideia de voo, de transcendência. Através de seus versos, o eu-lírico, mesmo que "mudo" e já incapacitado de habitar o mundo, se eterniza. Encontramos, por fim, o motivo que leva Cecília, e muitos dos autores que conheço, a escrever.



Referências:

CHEVALIER, J.; GHEERBRANT, A. Dicionário dos Símbolos. 28ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.
MEIRELES, C. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.