ANÁLISE #06: A RELIGIOSIDADE DE C.S. LEWIS

29/11/2017


A RELIGIOSIDADE DE C.S. LEWIS 

ANÁLISE #06


ANÁLISE: As crônicas de Nárnia
AUTOR: C.S. Lewis

SINOPSE: Viagens ao fim do mundo, criaturas fantásticas e batalhas épicas entre o bem e o mal - o que mais um leitor poderia querer de um livro? O livro que tem tudo isso é ''O leão, a feiticeira e o guarda-roupa'', escrito em 1949 por Clive Staples Lewis. Mas Lewis não parou por aí. Seis outros livros vieram depois e, juntos, ficaram conhecidos como ''As crônicas de Nárnia''. 

Nos últimos cinquenta anos, ''As crônicas de Nárnia'' transcenderam o gênero da fantasia para se tornar parte do cânone da literatura clássica. Cada um dos sete livros é uma obra-prima, atraindo o leitor para um mundo em que a magia encontra a realidade, e o resultado é um mundo ficcional que tem fascinado gerações. 


Também sou conhecido no seu mundo, mas por outro nome
C.S. LEWIS

Não é segredo para nenhuma pessoa que conheça a biografia de Clive Staples Lewis, mais conhecido por seus fãs como C.S. Lewis, que o professor e teólogo, boa parte de sua vida, foi ateu e conservou uma ideia materialista a respeito do mundo.

Desde a morte de sua mãe, o autor se afastou da religião, influenciado, principalmente, por seu mentor William Kirkpatrick. Somente anos depois, no período de 1930, a partir da influência de um grande amigo e escritor, J. R. R. Tolkien, que Lewis retomou a sua religiosidade.

Durante as conversas no pub favorito dos autores, a religião e a literatura se entrelaçavam fortemente, tanto na narrativa tolkieniana quanto na narrativa de Lewis, visto que Tolkien, dentro da obra Senhor dos Anéis, utilizou o máximo que pôde de seu conhecimento sobre mitologias. De maneira semelhante, vemos o mesmo processo se dar na obra As Crônicas de Nárnia.

Que as duas obras são fascinantes, todos nós já estamos cansados de saber. Inclusive, também sabemos o quão trabalhoso foi para os autores criar os seus mundos, enquanto Tolkien queria explorar as línguas que havia criado, C.S. Lewis parecia mais interessado em descobrir a respeito das maneiras que se escreve para crianças, ou seja, o que Lewis, na verdade, desejava era escrever histórias que lhe agradassem, independentemente de sua idade.

Ele possui um ensaio intitulado "Três Maneiras de Escrever Para Crianças", que pode ser encontrado no final do volume único da edição de 2009 de As Crônicas de Nárnia. Nesse ensaio, Lewis relata sobre o desejo de criar narrativas que estejam de acordo com seu próprio gosto literário; fala também sobre o fato de que contar histórias voltadas para crianças, na sua perspectiva, é a melhor forma de expressar o que deseja dizer ao mundo:


"A terceira maneira, a única que sou capaz de usar, consiste em escrever uma história para crianças porque é a melhor forma artística de expressar algo que você quer dizer".


Mas o que C. S. Lewis queria dizer para essas crianças ou até mesmo para sua criança interior? O que muitas pessoas deixam passar, acredito eu, quando julgam ou não julgam As Crônicas de Nárnia como uma história que semeia o cristianismo é o discurso que vemos logo em sequência, expresso claramente pelo autor.

De fato, ao criticar uma narrativa ou apontar um ponto de vista a respeito dela, não me deixo levar pela história de vida do autor, visto que não tenho a crença que toda história se assemelha ou é a ideia implícita das crenças que esse escritor possui, porém, para trabalhar a religiosidade dentro de As Crônicas de Nárnia, torna-se impossível não levar em consideração a jornada de Lewis.

Na época que começou a escrever As Crônicas de Nárnia, na década de 1940, Lewis já havia se convertido a sua fé e deixado o seu ateísmo de lado. Ele era alguém cuja crença havia se modificado muito fortemente, ao ponto de ter um programa de rádio dedicado a falar da religião para as pessoas, como ele outrora fora, céticas. Como não imaginar ou supor que esse homem, defensor religioso contínuo, não desejava ler algo religioso, em mesma medida?

Não é inverossímil, inclusive, nem muito distante, o fato de que Nárnia possa de fato ter sido influenciada pela crença cristã, inclusive por passadas sequenciais da Bíblia, como a figura do Leão Aslam e a própria figura da feiticeira, que se veste com a juba de Aslam, dando a impressão da dualidade bíblica de Jesus e do próprio Diabo.

Entretanto, eu diria que é ingênuo dizer que as influências de Nárnia sejam meramente cristãs, visto que observamos diversas figuras pagãs durante a narrativa que também acreditam em Aslam. Esse ponto é o mais interessante e que faz com que muitas pessoas descartem a possibilidade logo de cara e afirmem que Nárnia não é uma - por falta de melhor expressão - parábola bíblica. Contudo, seria um erro histórico dizer que não há uma relação entre as figuras pagãs e as figuras bíblicas.

O que eu quero dizer com isso, e que muitos podem até achar problemático, é que a base da religião cristã se fundamenta nas religiões pagãs. Não é problemático pela via histórica, visto que podem ser ressaltadas diversas datas pagãs que convergem com datas festivas cristãs, mas pela vida da crença cega de alguns indivíduos que preferem se cegar à realidade das coisas.

Falar de religião sempre é um tema muito complexo, logo, deve-se saber a fundo sobre a temática para entrar em um debate e, de fato, o que C. S. Lewis fez foi saber a fundo sobre o estudo religioso, afinal, ele era um teólogo. Então, ao convergir figuras mitológicas de outras crenças, sendo essas crenças pagãs, Lewis não foge do escopo religioso cristão, ele o demonstra em sua origem, como faz durante toda a narrativa da criação até a destruição de Nárnia.

Inclusive, outro ponto que deve ser necessário entrar nessa questão é o fato de alguns religiosos contemporâneos julgarem as religiões pagãs, sendo que elas não eram condenadas pelo círculo religioso, pois - a partir da crença da época - as pessoas seguiam a crença pagã por serem ignorantes à palavra cristã. Logo, acreditar em sua religiosidade pagã não era ruim, mas um equívoco, de acordo com tais indivíduos.

Dessa forma, os artifícios que a Igreja utilizou com o decorrer do tempo eram voltados a fazer com que essas pessoas compreendessem a palavra de Jesus Cristo, palavra essa que não prega segregação, mas amor e união entre as pessoas. Miscigenar criaturas míticas e as figuras bíblicas, na perspectiva da crença cristã, não seria uma maneira de unir as pessoas por uma crença comum, no caso Aslam?

Entretanto, essa religiosidade - perceptível - na narrativa de Lewis torna-se um pouco incômoda no decorrer da leitura dos sete livros que compõe as suas crônicas, visto que há um preconceito presente dentro da história, em relação as pessoas que acreditam em outras coisas (que não Aslam) e que possuem uma aparência diversificada a um estilo padronizado dentro da narrativa. Mas a quem pertence esse preconceito? Seria a nós, os leitores, ou seria ao autor, C.S. Lewis?

Esse é um aspecto muito complexo dentro da narrativa que parece excluir aqueles que não acreditam em Aslam, porém não é esse o padrão de muitos dos religiosos fervorosos? Será que C.S. Lewis escrevia os seus pensamentos corriqueiros a respeito das demais religiões ou, talvez, transferia um fluxo contínuo da realidade do mundo em que vivia diretamente para o mundo que imaginava? Como pensar essa questão preconceituosa e religiosa dentro de Lewis sem avaliar outras possibilidades, ainda mais se lembrarmos que ele trouxe figuras mitológicas como personagens significativos dentro da trama? Como pensar a fábula e alegoria que Nárnia representa a partir dos animais falantes ou da própria ideia de criação e destruição do mundo?

Nossa vida não é feita de felicidade plena, nem mesmo da palavra plena que prega o cristianismo a respeito de ideias como o amor, a fé e, principalmente, o respeito ao próximo, logo, por que o universo narniano - mesmo que voltado para crianças - também o seria? C.S. Lewis queria, como já foi mencionado, escrever algo que desejasse também ler, logo, será que a partir da alegoria de Nárnia, Lewis transpôs o que via na realidade e não queria afastar, de todo, as crianças dela?

O mundo fantasioso e belo de Nárnia poderia ser cantado por Hesíodo, tanto quanto poderia ser parte da Bíblia, que fora antes de ser escrita, recitada: Nárnia foi criada por um canto, por uma voz. Entretanto, eu não vejo nenhum desses dois textos afastando completamente as malícias e as desgraças do mundo. Por que Nárnia seria diferente se é uma alegoria?

Há muito mais questões a respeito da religiosidade e também do próprio universo criado por C.S. Lewis, em As Crônicas de Nárnia. Contudo, são questões que ficarão em aberto, mesmo que desejemos respondê-las com concretudes, com respostas como sim ou não.

O que nos esquecemos, entretanto, nesse desejo insano de responder todas as perguntas que nos são feitas ou conceptualizar tudo que ocorre a nossa volta é que o que faz com que um texto seja eterno é o nosso desejo contínuo de investigá-lo, sem em nenhum momento suprimi-lo. Por que não perguntamos mais antes de tentarmos ter respostas concretas?


REFERÊNCIAS

DOWNING, David. C.S.Lewis: o mais relutante dos convertidos. São Paulo: Editora Vida, 2006
LEWIS, C.S. As Crônicas de Nárnia: Volume Único. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2009
MCGRATH, Alister. A vida de C.S. Lewis: Do ateísmo às terras de Nárnia. Tradução de Almiro Pisetta. 1ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2013.