ANÁLISE #04: SE PODES OLHAR, VÊ. SE PODES VER, REPARA

16/11/2017


SE PODES OLHAR, VÊ. SE PODES VER, REPARA

ANÁLISE #04


ANÁLISE:
Ensaio sobre a Cegueira
AUTOR: José Saramago

SINOPSE: Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma 'treva branca' que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.'O Ensaio sobre a cegueira' é a fantasia de um autor que nos faz lembrar 'a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam'. José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti.

Não há nomes. Só pessoas. Muitas pessoas que caem sobre sua própria cegueira, seja cegueira da alma, seja a cegueira dos olhos. A cegueira é branca, como o céu cinzento que esconde o Sol, esconde a esperança.

"O Ensaio sobre a Cegueira" é uma obra que contempla o homem e as suas performances no meio, ainda mais, contempla a sua queda pela sua própria natureza que ignora o outro. Entre todos os que restaram, só sobrara uma mulher - a mulher do médico - e os animais, pois eram eles os puros entre os tantos ingratos que ajudavam para receber, entre tantos malvados, violentos e maldosos que cercavam o mundo.

O texto começa quando um homem, no meio do trânsito, fica cego. Simplesmente cego. Mas a sua cegueira é incomum, pois suas pupilas não parecem ter problema e, ainda mais, a cegueira não é escura, sombria e fria, mas um "mar de leite". Em seguida, a epidemia surge e vai levando pessoa por pessoa, até o momento que o governo age e, de maneira vil, trancafia um grupo de doentes para que não se espalhe mais.

Não existe nome de nenhum cidadão. Não existe nome da cidade ou do governo, pois poderia ser qualquer um de nós, qualquer governo que nos representa; o temor de ser atingido cega a todos. O temor de ser atingido aflige e faz com que se afaste. Por esse motivo, a esposa do médico, talvez, seja aquela que se mantém incólume da doença que atinge a todos, porque ela repara e permanece.

"O medo cega... são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos."

O quanto vale o outro? A essa pergunta, Saramago responde com o egocentrismo do homem, com a importância que um ser humano dá a própria sobrevivência. A resposta é dolorida, pesada, mas é verídica. O homem desce ao estado mais catatônico, tentando forjar a dor para alimentar o próprio ego para que o ele não pereça, torna-se bruto e animalesco, aos poucos, tudo o que compõe uma sociedade bela e estruturada se desfaz, porque "o homem é o lobo do homem", como diria Thomas Hobbes.

"A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança."

A cegueira é uma metáfora, uma das belas metáforas elaboradas por Saramago. Como o céu cinzento que cobre a vista do Sol, a cegueira é aquela que cobre a esperança para dias melhores, para pessoas melhores. A cegueira não tem causa, também não é uma obra que busca justificativas, mas uma estória que busca soluções.

Soluções sobre a natureza humana, soluções sobre a própria construção da persona do homem, que tende a ser violenta e massacrante. No entanto, ainda assim, somos ínfimos diante das possibilidades que o mundo e a natureza nos trazem.

"Mas quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos."

Qual o nosso tamanho em comparação ao mar? Ao céu ou às estrelas? Qual é a nossa imensidão, se até mesmo nosso legado é escasso em comparação aos tempos em que o mundo viveu sem a nossa presença? Mas, ainda que tenhamos vivido tão pouco em comparação ao resto, o quanto fomos capazes de destruir e matar? O quanto fomos capazes de desolar o outro, tirar-lhe a esperança? O quanto o ser humano foi ruim com outro ser humano? E, nessa mesma linha, o quanto o ser humano foi vil com quem nem é ser humano?

O homem não respeita a si mesmo, nem ao outro. Nem a nada. Saramago demonstra que não importa se somos capazes de ver, nós simplesmente não reparamos no que vemos.

"Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem."

Como outrora comentado, não há necessidade de saber a razão sobre como a cegueira começou, tal como não existe necessidade de saber sobre como Gregor Samsa virou uma barata da noite para o dia em "A Metamorfose". As coisas simplesmente acontecem, no fundo, simples e de maneira resoluta. Algumas coisas não possuem explicação, muito embora o homem tente investigá-las, em uma legítima fuga para não investigar a própria natureza.

Mas a natureza permanece. Na cegueira ou fora dela, pois estamos simplesmente cegos, é de nossa natureza não reparar, logo, mal ver. E se ver, ignorar, pois é mais fácil do que notar, sentir, querer ajudar.

"Costuma-se até dizer que não há cegueiras, mas cegos, quando a experiência dos tempos não tem feito outra coisa que dizer-nos que não há cegos, mas cegueiras."

A natureza do homem o faz cego, porém um cego seletivo. O homem seleciona o que deseja não ver, destratando as pessoas e as coisas do mundo a partir de sua seletividade, importando-se apenas com a sua persona e quem faz algo por ou para si, com interesses em seu egoísmo contínuo. Logo, o homem vive em estados de cegueira, do qual pode sair se desejar, mas a penumbra continua a cobri-lo justamente porque esse desejo não surge, o intrínseco do homem permanece e continua cego em suas mazelas e descasos perante o coletivo que o torna o que é, sem perceber que a sociedade é parte do seu eu e o seu eu é tão vil quanto a sociedade que se cega.

A partir desse ponto, a figura feminina da esposa do médico ressurge como aquela que vai de confronto com a sociedade e a todos os presos no manicômio - ou "todos os presos no manicômio já são a sociedade? "; como ela mesma declara -, tornando-se a única capaz de memorar o sofrimento de ver em uma sociedade de cegos e não estar cega junto com eles.

"É que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos."

A incompreensão dela perante o todo é ínfima em comparação ao todo diante dela. Ela vê justamente por ser capaz de reparar, logo, compreende a dor que aflige aos outros muito melhor do que os outros a compreendem e a percebem com sua visão que toca o que incomoda, que toca e percebe. A esposa do médico é o símbolo de que a humanidade possui salvação, como até o final da obra que busca, e consegue apreender em parte, a cura para a cegueira.

Presa nessa sociedade, a esposa se vê diante de desafios por ser capaz de ver. Ela vê como os animais e é a única que consegue sair incólume diante da terrível epidemia que se espalha, justamente por ser a única a desejar permanecer - ou assim se pensa - enquanto os outros tentam afastar.

Aqui, nesse momento, as hierarquias sociais caem por terra, seja para com os bandidos, os manobristas ou os médicos, todos não são capazes de ver, logo, a hierarquia é dela e dos outros, enquanto ela vê por reparar e os outros, não enxergarem por serem incapazes de notar. Seria, então, possível comparar a esposa do médico a um profeta bíblico? Ou sendo a salvadora da humanidade, não como contingente/ aglomerado de pessoas, mas como coletivo humano/ sentimentalismo?

Como símbolo, a figura feminina é maternal e também a que se dedica ao sentimentalismo/ sentimentos e sensações de apego, porém não é toda ou qualquer figura que se apresenta dessa forma durante a narrativa, mas a mulher do médico, do homem especializado em cuidar do próximo. Seria, então, coincidência de Saramago colocá-la como a capaz de ver?

Mesmo fora da sociedade, a sociedade insiste em estar presente, pois a humanidade necessita do coletivo para compreender a si mesma, caso contrário, não haveria compreensão. Como entender a si mesmo sem tentar compreender o resto? Como entender a necessidade de compreender a si mesmo se não houver algum modelo comparativo? Como enxergar em nós mesmos as nossas reações, diferenças se não há o que comparar? O homem é um indivíduo necessitado do coletivo para não somente organizar o meio, mas organizar a si mesmo. Reparar no outro não somente como necessidade de vê-lo, mas como necessidade de ver a si mesmo, observando seus defeitos e suas qualidades.

No entanto, essa compreensão do outro e de si mesmo, com o passar dos anos, vem se perdendo em meios tecnológicos como em meios intrínsecos ao subjetivo. Quanto mais subjetiva a sociedade se torna, menos tende a desejar compreender o outro, logo, vê-lo como alguém passível a opinião ou ponto de vista, focando-se - em mesma medida - no seu ponto de vista, sem tentar ir além ou tentar compreender porque se perde em suas próprias opiniões.

A sociedade subjetiva torna o centro do eu e das questões do eu-próprio mais importante do que o pensar bíblico do próximo, trazendo em questão a importância de cada indivíduo para o coletivo e vice-versa. Nós nos importamos? Até que ponto? O quanto o coletivo vale mais do que o indivíduo? O quanto o indivíduo vale mais do que o coletivo?

"O Ensaio sobre a Cegueira" trata justamente, e possivelmente além, dessas questões que se tornam cada vez mais válidas dentro de nossa sociedade perdida nela mesma, enquanto nós estamos perdidos em nós mesmos, como seres humanos e seres humanizantes.

Se há importância, haverá salvação. E, quando todos nos importarmos uns com os outros, nesse momento, encontraremos a luz, a visão, ao próximo, principalmente, a esperança. Encontraremos tudo outra vez, porém, enquanto isso, estaremos cegos e perdidos no mar branco que não nos traz nada, nem mesmo a última que deveria morrer: a esperança.

Nenhuma esperança.

Se antes de cada ato nosso nos puséssemos a prever todas as conseqüências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nosso ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprova-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.

JOSÉ SARAMAGO


REFERÊNCIAS

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. Companhia das Letras. 24º reimpressão, 2002.