CRÍTICA #04: ACHA QUE SOU O DIABO POR QUE SOU MAU OU POR QUE NOSSO PAI QUIS?

02/10/2017


ACHA QUE SOU O DIABO POR QUE SOU MAU OU POR QUE NOSSO PAI QUIS?

CRÍTICA #04 


SINOPSE: Lucifer Morningstar é o Senhor do Inferno, porém estava entediado e infeliz exercendo seu cargo. Ele renuncia ao seu trono e abandona o seu reinado para tirar férias em Los Angeles, onde dá início a uma casa noturna, chamada Lux, com a ajuda de sua aliada demoníaca Mazikeen. Depois que uma celebridade a quem Lucifer ajudou a alcançar a fama é assassinada, ele se envolve com a polícia de Los Angeles, onde começa a ajudar a Detetive Chloe Decker a resolver casos de homicídio e encontrar os responsáveis para que possa "puni-los".

DIRETOR: Tom Kapinos (2015)
GÊNERO: Drama, Fantasia e Policial.
DISTRIBUIDOR: Warner Bros. ' Estados Unidos

Alguns diriam que vivemos em uma época onde há uma subversão de valores tão esmagadora que até o próprio Diabo já foi convertido; outros, como eu, poderiam pensar que existe uma nova possibilidade, uma nova fronteira entre o certo e o errado já mencionados nos textos sagrados. Nós vivemos em um tempo onde as noções de correto e incorreto não são necessariamente as mesmas do passado religioso cristão, embora estejam enraizadas no pensamento de muitas pessoas ainda, através do endeusamento religioso.

A proposta de Lúcifer, série que marcou sua estreia no ano de 2016, é - em uma série procedural e policial, quase que uma comédia, na verdade - tramar contra uma proposta corriqueira da imagem que vemos do Lulu ou Luci, apelido carinhoso para o senhor do Inferno. A primeira imagem que nos vem à cabeça está relacionada a rabo e cascos de bodes, além de chifres ou da própria cabeça - existe uma persuasão gigantesca no bode quando se trata dele, mas essa associação se deve, na verdade, a mitologia grega, por conta do deus Pã, divindade da natureza, que estava também ligado ao sexo; se sexo é pecado, só pode ser coisa de Luci.

Contudo, se você acredita que ele é malévolo, horrível e entre tantos mais adjetivos negativos que possam ser dados a essa figura simbólica e mitológica, a série subverte - e muito - essas noções. Lúcifer é realmente charmoso, como toda criatura sobrenatural passou a ser de uns anos para cá, diria que também é muito bonito, pois o ator Tom Ellis é realmente cativante, não somente na aparência, mas também na própria atuação. Ele interpreta o personagem absolutamente bem, diria que, entre todos os trabalhos mais conhecidos do ator, nos quais se enfatiza uma conexão entre mítico, fabuloso ou fantástico, como Cenred, em Merlin (2008), ou Robin Hood, em Once Upon a Time (2011), o ator não só evoluiu muito como também parece muito mais à vontade com o personagem atual.

Quem é esse personagem atual? Essa pergunta me parece ser a mais interessante entre todas e, por isso, futuramente, você encontrará um texto mais aprofundado por aqui. Porém, em uma resposta primária, podemos dizer que esse é um personagem inteiramente novo, com uma roupagem diferenciada e elaborada por ninguém menos que o gênio Neil Gaiman. Lúcifer é um personagem do selo adulto da DC Comics, Vertigo, que é extremamente charmoso, hábil e que, ao contrário do que muitos poderiam pensar, nunca mente.

O fato de não mentir causa uma comoção cômica bem intensa durante a série que, ao contrário do tema principal - a questão do livre-arbítrio e sobre a culpabilização dos nossos erros voltados sempre para entidades cósmicas ao invés de nós mesmos - e até um pouco da personalidade de Lúcifer, não tem absolutamente nada a ver com os quadrinhos. Lúcifer (Tom Ellis) mantem a essência do personagem, mas o Lúcifer dos quadrinhos é um personagem bem mais frio e rígido quando se trata da humanidade.

Entretanto, essa mudança de perspectiva das HQs não é ruim, pelo contrário, traz um sabor agridoce e novo para o personagem idealizado em The Sandman, o qualera tão incrível e fantástico que ganhou um spin-off só para ele. Claro que, com isso, muitas mudanças ocorreram, como a personalidade de Mazikeen e até mesmo como se configura a relação entre o protagonista e Amenadiel. Inclusive, todo o enredo policial e a própria trama que ganha vida na série são novos em folha - o que te permite ter duas experiências diferentes com dois personagens distintos entre si e, ao mesmo tempo, também te permite questionar toda uma visão religiosa a respeito da figura de Samael, Lúcifer - coisa já feita por autores do passado como John Milton.

Aproveitando o assunto de autores do passado, a série também reflete referências filosóficas, literárias e da cultura pop o tempo inteiro. Em um dos episódios da segunda temporada, por exemplo, há uma piada filosófica quando se questiona sobre a vida de Deus. Então, dizem "deus está morto". Lúcifer, brilhantemente, questiona "Nietzsche? ", visto que o primeiro filósofo a falar sobre a morte de Deus, ou melhor, a morte da crença religiosa a partir da fé foi ele com a frase "Gott ist tot", que significa "Deus está morto", presente no livro Gaia é Ciência e também no livro Assim Falava Zaratustra e O Anticristo. Há, também, outras referências mais claras e mais conhecidas dentro da cultura popular, como referências a Star Wars.

Além disso, no que diz respeito às referências, elas existem - e são numerosas - dentro da própria linguagem da série, o que dá todo um ar diferenciado. Os termos, expressões e piadas linguísticas são sempre relacionados a fé, religião e ao próprio nome das divindades, geralmente, trazem comicidade, algumas passam até despercebidas. A questão primordial é: nada dessas piadas ou falas parece forçado, a razão disso é que a língua traz consigo a religião, a crença e a fé - mesmo que você não acredite nelas - tão enraizada que fica difícil o desapego. Nós usamos expressões religiosas ou que se conectam a personagens bíblicos o tempo todo, pois a língua é reflexo da história e da própria humanidade - que passou mais da metade do tempo debatendo a religião e a colocando como centro de disputas, lutas ou de justificativas.

Contudo, nem só de ideias surpreendentes e referências mirabolantes e religiosas a série é feita. Lúcifer traz consigo uma trama procedural - aquela que sempre apresenta episódios considerados autoconclusivos, ou melhor, independentes, pois, a cada semana, a trama introduzida se encerra dentro dela mesma - e policial bem frágil, os casos são bem rasos e as conclusões geralmente bem óbvias, mesmo que cada caso sempre tenha uma conectividade com o enredo principal, ou seja, o arco do próprio Lúcifer e não se perca totalmente do objetivo de chegar ao clímax da temporada.

De mazelas e qualidades, a série ganha muitos pontos com a nova perspectiva que abarca. Na verdade, essa nova ideia do diabo com toda certeza não merece só atenção, como também merece ser assistida, refletida e debatida entre as pessoas que se interessarem, pois mostra a fragilidade do homem, das suas crenças e também do próprio funcionamento do mundo.

Lúcifer mostra, a partir da sua habilidade de manipulação, os desejos dos homens, questiona a corrupção policial, discute ideologias, critica o pensamento frágil e humano que não investiga as suas próprias crenças, além de muitas outras ideias que podem e devem ser debatidas. No entanto, infelizmente, o maior problema desse questionamento é que ele fica no plano do implícito, escondido por detrás das cortinas da piada ou da ironia na maioria das vezes, pois, ao contrário do universo das HQs que explora isso com muito mais intensidade, a série televisiva pode - e é desejo dos seus distribuidores - abranger um público muito maior e com opiniões já muito enraizadas quanto a sua crença. Como dizem aqui no Brasil, não se discute política, nem fé e nem futebol - embora, nos tempos atuais, o que mais necessitemos é questionar sim as diretrizes impostas a nós e moldá-las para o melhor possível.

Lúcifer vai te fazer perder o fôlego quando você perceber que está torcendo para o diabo, pois ele está cansado, ferido emocionalmente e é uma delícia de anjo.


REFERÊNCIAS

BÍBLIA, Português. A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição rev. e atualizada no Brasil. Brasília: Sociedade Bíblia do Brasil, 1969.
CAREY, M. Lúcifer - The Morningstar Option. Ilustration Scott Hampton. USA: DC Comics: Vertigo, 2000.
______. Lúcifer. Ilustration: Chris Weston, Dean Ormston, James Hodgkins, Peter Gross, Ryan Kelly. USA: DC Comics: Vertigo, 2000 - 2006.
GAIMAN, N. Sandman - volume 1, edição definitiva. Tradução de Jotapê Martins. São Paulo: Panini Books, 2010.
______. Sandman - volume 2, edição definitiva. Tradução de Jotapê Martins. São Paulo: Panini Books, 2011.
GINGRICH, F. Wilbur & DANKER, Frederick W. (Ed.). Léxico do Novo Testamento Grego-Português. São Paulo: Vida Nova, 1984.
LIDDELL and SCOTT. Greek-English Lexicon. 7. ed. Nova Iorque: Oxford, 2001.
MILTON, J. O Paraíso Perdido. Tradução de Daniel Jonas. 2ª edição. São Paulo: Editora34, 2016.
NIETZSCHE, F. Grandes obras de Nietzsche. 3 volumes. 1ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
STRONG, J. Dicionário Bíblico Strong: Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002.
WAGNER, H. GOLDEN, C. BISSETTE, S. R. Príncipe de histórias: os vários mundos de Neil Gaiman. Tradução de Santiago Nazarian. São Paulo: Geração Editorial, 2011.