RESENHA #04: A ARTE DE CRIAR HISTÓRIAS: A LIÇÃO DE UM MESTRE

21/09/2017


A ARTE DE CRIAR HISTÓRIAS: A LIÇÃO DE UM MESTRE

RESENHA #04


AUTOR:
Stephen King
SINOPSE: Com uma visão prática e interessante da profissão de escritor, incluindo as ferramentas básicas que todo aspirante a autor deve possuir, Stephen King baseia seus conselhos em memórias vívidas da infância e nas experiências do início da carreira: os livros e filmes que o influenciaram na juventude; seu processo criativo de transformar uma nova ideia em um novo livro; os acontecimentos que inspiraram seu primeiro sucesso: Carrie, a estranha. Pela primeira vez, eis uma autobiografia íntima, um retrato da vida familiar de King. E, junto a tudo isso, o autor oferece uma aula incrível sobre o ato de escrever, citando exemplos de suas próprias obras e de best-sellers da literatura para guiar seus aprendizes.

Ao ler um livro, meu lado escritora e leitora se unem em uma mescla perfeita de adoração, curiosidade e anseio. Mesmo me deixando levar pelo enredo, nunca deixo de prestar atenção na escrita que me é apresentada. Tento ler nas entrelinhas para ver como o(a) autor(a) alcançou tais palavras, criou tão perfeita frase - daí minha adoração e também curiosidade - e desenvolveu tal enredo. Anseio por conhecer a pessoa por detrás da história, busco a empatia pelos seus desafios e pelas suas provações, algo que me conecte um pouco mais com o que está acontecendo bem na minha frente.

Stephen King é um dos autores que desperta esses sentimentos em mim entre outros tantos autores, tenha certeza! No auge de seus 70 anos, o mestre do terror já publicou mais de 80 livros que, reunidos, venderam mais de 400 milhões de cópias em mais de 40 países, fazendo dele o 9º autor mais traduzido no mundo. Os números são impressionantes e de fazer inveja em qualquer escritor. No entanto, nem só de monstros e medo são feitos seus livros.

Publicado no Brasil em 2015, "Sobre a escrita - a arte em memórias" é um dos livros de não-ficção que complementam o currículo do autor. Uma união perfeita de autobiografia e dicas de escrita que pode soar como uma espécie de aula ou palestra, mas é apenas uma conversa. A transição entre narrativas ficcionais e não-ficcionais podem ser problemáticas para alguns escritores que, uma vez desprovidos de ambientação e plot twists, podem perder o rumo das palavras. Contudo, King mostra nesse livro que merece todo o peso e importância que seu nome carrega.

De escrita leve, descontraída e inteligente, o autor conta sua história como se estivesse sentado ao seu lado, dividindo uma bebida na sala de sua casa. Conhecido por sua prosa bem construída e, por vezes, lenta, é interessante observar a mudança de ritmo quando o próprio autor se transforma em seu personagem principal. King compartilha uma característica latente de inúmeros escritores pelo mundo: nunca acreditamos que nossa própria história possa ser tão interessante quanto as narrativas que criamos em nossas mentes.

Stephen começou a escrever por volta dos sete anos de idade. Apaixonado por histórias em quadrinhos, ele copiava as falas em seu caderno e acrescentava descrições e narrações quando achava necessário, transformando quadrinhos em prosa. Quando mostrou uma dessas histórias - meio copias, meio originais - para sua mãe, confessou que havia copiado, e ela - para nossa sorte - sugeriu que King escrevesse sua própria história.


"Eu me lembro do imenso sentimento de possibilidades ao pensar na ideia, como se eu tivesse sido levado a um enorme prédio cheio de portas fechadas e tivesse autorização para abrir as que eu quisesse. Havia mais portas do que alguém jamais conseguiria abrir ao longo da vida, pensei (e ainda penso)."


Todo escritor lembra com carinho do momento em que o mundo dá a volta que faltava para que tudo encontrasse seu lugar. O apoio e incentivo de sua mãe o motivaram a escrever algumas histórias sobre animais mágicos que andavam em um carro velho ajudando crianças - muito diferente dos clássicos de terror pelos quais o autor é reconhecido mundialmente. Contudo, devemos lembrar sempre que a construção do estilo de cada escritor é um processo lento e árduo. Nesse caminho, cada pedra é essencial. O apoio de pessoas, principalmente, as quais confiamos e respeitamos é muito importante, até mesmo reconfortante. Contudo, King não se detém em falar somente sobre o apoio e o carinho, ele também demonstra, no decorrer das páginas de seu livro, algo muito amargo, algo que nos faz realmente crescer e melhorar: a temida crítica.

Antes da internet disponibilizar inúmeras plataformas para escritores exporem seu trabalho, as revistas literárias eram o meio de divulgação mais prestigiado. Com 14 anos, enviou uma história original para a revista Alfred Hitchcock's Mistery Magazine.


"O texto voltou para mim três semanas depois, com um bilhete de recusa anexado. O bilhete trazia o inconfundível perfil de Hitchcock em tinta vermelha e me desejava boa sorte com a histórias. Ao fim havia uma mensagem curta e rabiscada, a única resposta pessoal que recebi da revista em oito anos de envios periódicos. "Não grampeie manuscritos", dizia o P.S. "Páginas soltar com clipe são a forma correta de envio." Era um conselho bem seco, pensei, mas útil de qualquer maneira. Nunca mais grampeei manuscritos."


Na época, a recusa de Hitchcock foi apenas uma entre inúmeras cartas de recusa que King recebera. Nada disso o fez desistir de suas ideias, suas histórias. Os elogios de sua mãe iam para o coração enquanto as recusas iam para a parede. Cada uma das cartas foi pregada na parede, bem à vista, uma motivação amarga e necessária. Os apontamentos que recebia eram lidos e assimilados, para que o autor pudesse trabalhar cada um deles. Quando o prego na parede já não conseguia suportar o peso - e o volume - das recusas, King fez o que todo escritor deve fazer: substituiu o prego por outro muito maior e continuou a escrever.


"Se você quer ser escritor, existem duas coisas a fazer, acima de todas as outras: ler muito e escrever muito. Que eu saiba, não há como fugir dessas duas coisas, não há atalho."


Infelizmente, nem mesmo toda a motivação que queima dentro de todo novo escritor impede que a vida adulta bata à porta - ou a derrube com um chute - e isso não foi diferente para King, como não é diferente para nenhum escritor. São raros os casos em que o escritor já consegue viver de sua escrita antes da faculdade e, por isso, é pressionado a escolher um caminho profissional que garantirá algum tipo de sustento. A mãe sugeriu que ele se tornasse professor, assim poderia "ter um lugar para onde correr" caso a vida de escritor não alcançasse sucesso.


"Entrei na Faculdade de Educação da Universidade do Maine, em Orono, e saí quatro anos depois com um diploma de licenciatura... Como um labrador sai de um lago com um pato morto na boca. Estava morto, e este é o ponto."


O medo, que viria a ser tão presente na obra de King, começava a se infiltrar na vida do escritor. Na época, já casado e com filhos, não conseguiu um emprego como professor, o que o levou a trabalhar em uma lavandeira. Um trabalho difícil que ele odiava, mas que pagava suas contas e sustentava sua família. Eventualmente, conseguiu ser contratado como professor, mas não era o bastante. Apesar de gostar de lecionar e gostar de seus alunos, não estava se dedicando à escrita como gostaria.


"(...) na maioria das tardes de sexta eu tinha a sensação de que passara a semana com cabos de bateria presos ao cérebro. Se em algum momento cheguei perto de entrar em desespero com meu futuro como escritor, foi nessa época."


A incerteza do futuro é latente na arte. Naquele momento, o monstro mais aterrador de King nascia em sua mente: o medo de nunca conquistar o sucesso como escritor. Felizmente, o autor lida com seus monstros através da escrita e, para derrotar tal monstro, é preciso alguém muito poderoso. Foi quando Carrie, a estranha nasceu.


"Não existe um Depósito de Ideias, uma Central de Histórias nem uma Ilha de Best-Sellers Enterrados; as ideias para boas histórias parecem vir, quase literalmente, de lugar nenhum, navegando até você direto do vazio do céu: dias ideias que, até então, não tinham qualquer relação, se juntam e viram algo novo sob o sol. Seu trabalho não é encontrar essas ideias, mas reconhecê-las quando aparecem."


Como toda história ficcional, as histórias da vida também costumam dar voltas e nos dar oportunidades a partir das pequenas coisas: como as ideias e as inspirações. O irmão de Stephen trabalhava como zelador de uma escola durante o verão e, por algum tempo, ele trabalhou com o irmão. Foi lá que ele descobriu que a escola disponibilizava gratuitamente absorventes no banheiro feminino. Lá, ele também observou que os chuveiros femininos eram separados por cortinas, garantindo uma privacidade inexistente no banheiro masculino. A cena nasceu na mente de Stephen: uma adolescente tendo sua primeira menstruação, sem saber o que estava acontecendo, acreditando que está gravemente ferida enquanto as outras meninas jogavam absorventes nela. Logo, uma ideia surgindo atrás da outra, lembrou-se de um artigo que lera anos antes em uma revista, falando sobre fenômenos poltergeist que, na verdade, poderiam ser atividades telecinéticas. Essas duas ideias sem qualquer relação - telecinesia e crueldade adolescente - juntaram-se e criaram algo novo.

Carrie não foi o primeiro romance escrito por Stephen King, mas foi o primeiro que ganhou atenção. Os direitos foram comprados pela editora Doubleday, em 1973, por um preço muito mais baixo do que o normal, mas que ainda era muito mais dinheiro do que Stephen já tivera em sua vida. No mercado editorial americano, é comum um livro ser lançado inicialmente com uma tiragem baixa e de capa dura, para, dessa forma, ser lançado em brochura, caso seja bem-sucedido, alcançando uma audiência maior. Stephen e sua mulher sonhavam com a possibilidade de Carrie conquistar uma edição em brochura, sendo assim, deixaram suas esperanças fluírem e especularam que poderia ser vendido por algo entre 10 mil e 60 mil dólares. Mais tarde, os direitos para a edição em brochura foram vendidos para a Signet Books por 400 mil dólares. Carrie vencera o monstro do medo.

"Sobre a escrita" é um livro obrigatório para todos os leitores que apreciam a obra de Stephen King e gostariam de ter um pequeno vislumbre de como sua mente funciona. É também uma incrível fonte de conhecimento, inspiração e motivação para qualquer escritor. Mesmo que não exista um manual de como ser escritor, conhecer a história de alguém que compartilhou - e ainda compartilha - de suas incertezas, de suas inseguranças e também de suas batalhas, é um ótimo exercício. É uma prova escrita de como a dedicação e o amor por algo podem levá-lo mais longe, como o caminho até os seus sonhos é escrito unicamente por você.

As dicas de escrita que Stephen King compartilha nesse livro transcendem as frases clichês e motivacionais que encontramos por aí; elas são uma verdadeira aula com um dos professores mais bem-sucedidos que o leitor poderia encontrar. Uma história é formada por detalhes que necessitam de atenção por parte do escritor, e isso, meu caro Sherlock, não se aplica somente a histórias de investigação policial. Os detalhes apontados por King são focados em fazer com que o texto seja objetivo, claro e fluído. O que é quase irônico, quando se sabe que o autor conta com verdadeiros calhamaços em toda a sua trajetória como escritor, mas, tenho certeza, seus leitores irão reconhecer o cuidado indispensável em cada página. A importância de boas descrições na ambientação, diálogos plausíveis e essenciais, tudo isso é esmiuçado em suas dicas, quase um manual para qualquer escritor.

"Sobre a escrita" é um ótimo livro para acabar com o mito romântico de que todo escritor nasce com o dom, um tipo de chamado cósmico e etéreo que traz inspiração das estrelas e transforma textos simples em texto magistrais - ou que já nascem magistrais, é claro. O talento de Stephen King é feito de muito trabalho, perseverança e, principalmente, paixão.


"Gosto de escrever dez páginas por dia, o que dá cerca de 2 mil palavras por dia. São 180 mil palavras ao longo de três meses, um livro de bom tamanho (...)"


O livro, uma grande conversa e também uma grande aula, faz com que o leitor se sinta mais próximo do autor, que conheça o homem por detrás das palavras. Assim como em suas narrativas, King tem uma técnica hipnotizante que atrai o leitor lentamente, até que, de repente, você se percebe hipnotizado. Em pouco mais de 250 páginas, Stephen traz a motivação que aquece o coração e também as críticas que devemos pregar em nossas paredes. Compartilhando um pouco do fascínio que a literatura exerce em sua vida, faz com que, ao final da leitura, cada um de seus leitores tenha mais e mais certeza que, mesmo sem um chamado cósmico, seu caminho não é obra do acaso. Um livro que será eternizado por gerações e gerações de leitores e escritores como um guia e um companheiro, além de uma esperança.

"O trabalho pode ter pagado a hipoteca da casa e garantido a universidade para os meus filhos, mas isso tudo é consequência - sempre escrevi por paixão. Pela alegria sincera que a escrita me dá. E, se você consegue escrever por que sente alegria vai escrever para sempre."
STEPHEN KING

REFERÊNCIAS

Sobre a escrita / Stephen King; tradução Michel Teixeira - 1 ed. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.